Sete em cada dez jovens brasileiros entre 16 e 29 anos estão inseridos no mercado de trabalho ou realizando estágio. Desse grupo, 32% conseguem conciliar emprego e estudos, enquanto 39% estão dedicados exclusivamente às atividades profissionais. Os dados fazem parte da pesquisa “Juventudes e o Mundo do Trabalho”, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva.
O levantamento ouviu 1.816 jovens em todo o país e analisou a relação dessa parcela da população com o trabalho, a educação e as perspectivas profissionais para os próximos anos.
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Apesar do percentual de jovens trabalhando ser considerado um indicador positivo, a pesquisa mostra que a entrada e a permanência no mercado ainda são influenciadas por fatores como desigualdade de renda, falta de experiência, concorrência pelas vagas e dificuldade de acesso à qualificação.
Desigualdade influencia conciliação entre trabalho e estudos
A possibilidade de trabalhar e estudar ao mesmo tempo varia significativamente conforme a condição socioeconômica. Entre jovens das classes A e B, 48% conseguem conciliar as duas atividades. Na classe D/E, esse percentual cai para 16%.
A diferença também aparece no recorte racial. Enquanto 38% dos jovens brancos conciliam trabalho e estudo, entre os jovens negros o índice é de 29%.
A renda também interfere na dedicação exclusiva ao trabalho. Nas classes A e B, 28% dos jovens afirmam somente trabalhar. O percentual sobe para 39% na classe C e chega a 47% entre aqueles das classes D e E.
A educação é considerada importante para melhorar as perspectivas profissionais. Segundo a pesquisa, 88% dos entrevistados entendem que é necessário estudar mais atualmente para conseguir um bom emprego, enquanto 85% consideram o diploma relevante para a trajetória profissional.
Os cursos técnicos e profissionalizantes também aparecem com destaque: 91% dos jovens avaliam essas formações como uma alternativa rápida para ingressar no mercado de trabalho.
“Temos um número significativo de jovens na universidade, mas ainda existe uma diferença muito grande entre as classes sociais. Isso mostra que há uma janela importante para fortalecer políticas públicas de inclusão no ensino superior.”, explica a gerente do Observatório Fundação Itaú, Carla Chiamareli.
Mulheres acumulam maior carga de cuidados
Além de estudar e trabalhar, parte significativa dos jovens também assume responsabilidades domésticas e familiares. Metade dos entrevistados afirma ser responsável pelos cuidados da casa.
A divisão dessas tarefas, porém, é desigual entre homens e mulheres. Entre as jovens, 60% realizam atividades domésticas, contra 40% dos homens.
A diferença também aparece no cuidado com crianças, idosos ou outras pessoas. Essa responsabilidade é exercida por 28% das mulheres entrevistadas, enquanto o percentual entre os homens é de 14%.
Os dados apontam para uma realidade em que parte da juventude precisa conciliar formação profissional, trabalho e responsabilidades familiares, com maior impacto sobre as mulheres.
Falta de experiência é principal obstáculo para conseguir emprego
A busca por uma oportunidade profissional também representa um desafio. De acordo com o levantamento, 61% dos jovens procuraram emprego no último ano e 20% estavam em busca de trabalho no momento da pesquisa.
A falta de experiência profissional é apontada como a principal dificuldade para conseguir uma vaga, citada por 49% dos entrevistados.
Na sequência aparecem a concorrência por oportunidades, mencionada por 39%; os problemas relacionados ao deslocamento até o trabalho, com 28%; e a falta de qualificação, apontada por 25%.
As redes de relacionamento também têm influência na entrada no mercado. A família é citada por 46% dos jovens como principal fonte de orientação profissional, seguida por amigos e conhecidos, mencionados por 40%.
Entre aqueles que trabalham ou já trabalharam, 77% afirmam que já conseguiram emprego por meio de indicação pelo menos uma vez.
Jovens valorizam experiência prática
A pesquisa mostra ainda uma preferência pela aprendizagem relacionada à experiência profissional. Nove em cada dez jovens afirmam que aprendem mais na prática do que apenas estudando.
O interesse por cursos técnicos e profissionalizantes reforça essa percepção. Além disso, 60% defendem que programas de apoio ao emprego ofereçam atividades práticas, e não somente conteúdo teórico.
Os resultados apontam para a necessidade de aproximar a formação educacional das experiências concretas do mundo do trabalho, segundo a avaliação apresentada por Carla Chiamareli.
“Um dado positivo é ver que 70% dos jovens estão trabalhando. Ainda temos um problema de inclusão produtiva da juventude no país, mas esse é um indicador relevante diante do cenário econômico que vivemos”, afirma a especialista.
Salário é importante, mas ambiente de trabalho também pesa
O salário aparece como o principal critério considerado pelos jovens na escolha de uma vaga, citado por 64% dos entrevistados. Entretanto, as condições do ambiente profissional também têm peso nas decisões.
Segundo o levantamento, 62% aceitariam receber menos para trabalhar em um local com menor nível de pressão e estresse.
A pesquisa também revela uma mudança nas expectativas em relação ao futuro profissional. Atualmente, 30% dos jovens afirmam desejar um emprego com carteira assinada. Quando projetam a situação para os próximos cinco anos, esse percentual cai para 16%.
No mesmo período, o interesse pelo trabalho autônomo aumenta de 28% para 42%. A mudança, segundo a análise apresentada na pesquisa, não necessariamente representa uma rejeição ao emprego formal.
O levantamento indica que parte dos jovens busca inicialmente estabilidade, condição associada ao trabalho formal com carteira assinada, e, posteriormente, pretende conquistar maior autonomia profissional.
Inteligência artificial gera oportunidades e preocupação
A tecnologia ocupa espaço na formação profissional dos jovens. Ao todo, 97% dos entrevistados afirmam utilizar a internet e ferramentas digitais para aprender e se desenvolver profissionalmente.
Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos provocam insegurança. Metade dos jovens teme perder oportunidades de trabalho por causa das novas tecnologias, enquanto 90% acreditam que a inteligência artificial poderá substituir muitos empregos nos próximos anos.
A preocupação ganha relevância entre aqueles que estão começando a carreira, especialmente diante da percepção de que algumas tarefas tradicionalmente associadas às primeiras experiências profissionais podem ser realizadas por ferramentas de inteligência artificial.
Entre as áreas de maior interesse para o futuro profissional estão Saúde, escolhida por 25% dos entrevistados, e Tecnologia, com 22%. Comércio e Vendas e atividades administrativas aparecem com 19% cada, enquanto Educação registra 16%.
Jovens mantêm expectativas positivas sobre o futuro
Mesmo diante das dificuldades para ingressar e permanecer no mercado de trabalho, a maioria dos jovens demonstra otimismo em relação à própria situação financeira.
De acordo com a pesquisa, 91% acreditam que estarão financeiramente melhor daqui a cinco anos. Além disso, 88% esperam alcançar uma condição financeira superior à dos pais.
Quase metade dos entrevistados, 46%, acredita que será mais fácil encontrar boas oportunidades profissionais nos próximos anos. Por outro lado, 61% têm receio de não conseguir pagar as contas e manter uma vida tranquila no futuro.
Os resultados mostram uma juventude que atribui importância à educação, à experiência prática e à tecnologia para construir sua trajetória profissional, mas que ainda enfrenta barreiras relacionadas à desigualdade social, à falta de experiência e ao acesso às oportunidades.
(Com informações de g1)
(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)







