Redução da jornada e fim da escala 6×1 aumentam produtividade, afirma Boulos

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou nesta quarta-feira (21) que a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho com um de descanso), pode contribuir para o aumento da produtividade e estimular a economia brasileira. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Bom dia, Ministro, do Canal Gov.

Segundo o ministro, a discussão sobre o tempo de trabalho deve ser tratada como uma política estratégica de desenvolvimento econômico e de valorização dos trabalhadores. Ele destacou que experiências já em curso no Brasil e no exterior indicam que jornadas menores, com mais dias de descanso, tendem a gerar melhores resultados produtivos e melhor qualidade de vida.

Boulos citou um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado em 2024, que analisou 19 empresas brasileiras que reduziram a jornada de trabalho sem diminuição de salários. O levantamento apontou que 72% dessas empresas registraram aumento de receita, enquanto 44% melhoraram o cumprimento de prazos, o que, segundo o ministro, demonstra que mudanças no regime de trabalho já vêm sendo adotadas mesmo sem alterações na legislação.

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Ele explicou que o aumento da produtividade está diretamente relacionado às condições de descanso dos trabalhadores. Para Boulos, a escala 6×1 compromete a recuperação física e mental, especialmente no caso das mulheres, que frequentemente acumulam o trabalho formal com tarefas de cuidado doméstico.

“E por que aumenta a produtividade? Com seis dias de trabalho, um de descanso – e às vezes esse um, principalmente para as mulheres, é para fazer serviço de cuidado em casa – quando essa pessoa chega ao trabalho, ela já está cansada. Quando esse trabalhador ou trabalhadora está mais descansado, o resultado é que ele vai trabalhar melhor. Então, o que a gente sustenta é baseado em dados”, afirmou.

O ministro também mencionou exemplos internacionais para reforçar a argumentação. Ele citou o caso da Microsoft no Japão, que adotou a escala de quatro dias de trabalho por três de descanso e registrou aumento de cerca de 40% na produtividade individual. Boulos lembrou ainda que a Islândia reduziu a jornada semanal para 35 horas, com quatro dias de trabalho, e registrou crescimento econômico e aumento da produtividade. Nos Estados Unidos, segundo ele, a redução média da jornada diária ocorrida nos últimos anos também foi acompanhada por ganhos produtivos.

Ao comentar críticas de setores empresariais, que associam a baixa produtividade da economia brasileira à inviabilidade da redução da jornada, Boulos afirmou que esse argumento ignora fatores estruturais, como a necessidade de qualificação profissional e de investimentos em inovação.

“Aliás, uma parte importante de uma produtividade menor que a média no Brasil não é responsabilidade do trabalhador, é do setor privado que não investe em inovação e tecnologia. Quase todo o investimento em inovação, tecnologia e pesquisa no Brasil é do setor público. O setor privado brasileiro é um dos que menos investe, proporcionalmente aos países no mesmo patamar”, argumentou.

A proposta defendida pelo governo prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, com limite máximo de cinco dias de trabalho por dois de descanso, o que na prática representa o fim da escala 6×1. O plano inclui um período de transição e mecanismos de compensação para micro e pequenas empresas. De acordo com o ministro, o governo mantém diálogo com o Congresso Nacional para que o tema seja votado ainda neste semestre.

No Legislativo, tramitam diferentes propostas sobre o assunto. Em fevereiro do ano passado, foi protocolada na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 8/2025, que estabelece jornada máxima de 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias de trabalho, e dá fim à escala 6×1. Outras iniciativas com formatos distintos de redução da jornada também estão em debate.

Juros altos

Boulos reconheceu que há resistência de setores empresariais, que alegam aumento de custos operacionais com a necessidade de contratação de mais trabalhadores. Para ele, esses impactos são superdimensionados e, no caso das micro e pequenas empresas, devem ser tratados com modelos específicos de adaptação.

De acordo com o ministro, o alto patamar da taxa básica de juros (Selic) no Brasil é um dos grandes responsáveis pela elevação dos custos para as empresas e limita sua capacidade de investimento.

“Já passou da hora de reduzir essa taxa de juros, porque 15% de juros nenhum trabalhador aguenta e nenhum empresário aguenta. Como é que você vai aumentar o investimento? Como é que você vai arrumar capital de giro com esse custo do dinheiro? Não tem o menor cabimento. Então, parte do problema que vai aliviar os pequenos, os médios e, nesse caso, até os grandes empresários do Brasil é a redução da taxa de juros escorchante e injustificável”, argumentou.

Atualmente, a taxa Selic está fixada em 15% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o maior patamar desde 2006. Apesar da desaceleração da inflação, o Banco Central tem indicado cautela e sinalizado a manutenção dos juros elevados por um período prolongado. A próxima reunião do Copom está prevista para os dias 27 e 28 de janeiro.

Com informações de Agência Brasil
Foto: Lula Marques/Agência Brasil

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