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O comportamento ocorre quando o profissional permanece em atividade mesmo sem estar em condições físicas ou mentais

Presenteísmo: 7 em cada 10 trabalhadores já trabalharam doentes; entenda os riscos e direitos

Trabalhar mesmo doente, ignorar sintomas ou manter a rotina profissional apesar da recomendação de descanso é uma realidade para grande parte dos trabalhadores brasileiros. O comportamento, conhecido como presenteísmo, ocorre quando o profissional permanece em atividade mesmo sem estar em condições físicas ou mentais adequadas para exercer suas funções.

Uma pesquisa realizada entre 17 e 21 de julho de 2026, com 1.537 trabalhadores brasileiros, mostra a dimensão do problema. Sete em cada dez entrevistados (70,3%) afirmaram já ter trabalhado mesmo sabendo que deveriam ter descansado por causa de um problema de saúde.

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Entre os 1.081 trabalhadores que responderam afirmativamente, o principal motivo foi o receio de sobrecarregar os colegas, citado por 35,4%. Outros 27,9% consideraram que o problema de saúde não era grave, enquanto 17,3% apontaram medo de prejudicar a própria carreira. A pressão da empresa ou da liderança foi mencionada por 12,5%, e 6,9% indicaram outros motivos.

Trabalhar doente pode piorar a saúde

A permanência no trabalho durante um período de doença não significa necessariamente que o trabalhador esteja conseguindo desempenhar suas atividades normalmente. Os dados da pesquisa mostram que o presenteísmo pode ter consequências para a recuperação.

Entre os trabalhadores que disseram já ter trabalhado quando deveriam estar descansando, 39,7% afirmaram que seu estado de saúde piorou depois disso. Outros 32% disseram que demoraram mais para se recuperar, enquanto 28,3% não perceberam diferença.

O levantamento também mostra que a cultura do ambiente profissional pode influenciar esse comportamento. Apenas 26,4% dos entrevistados disseram que a empresa incentiva claramente os funcionários a descansarem quando estão doentes. Para 43,7%, esse incentivo ocorre apenas parcialmente. Outros 23% afirmaram que não existe esse estímulo, enquanto 6,9% não souberam avaliar.

O impacto sobre a segurança também é expressivo: 61% acreditam claramente que trabalhar doente pode aumentar o risco de erros ou acidentes, enquanto 28,4% consideram que isso pode ocorrer em parte. Somados, os dois grupos representam 89,4% dos entrevistados.

Medo de parar e pressão por produtividade

O presenteísmo pode estar relacionado a uma cultura profissional em que a permanência no trabalho é interpretada como comprometimento. Nesse cenário, trabalhadores podem deixar a própria saúde em segundo plano por receio de comprometer resultados, prejudicar colegas ou sofrer consequências na carreira.

A experiência de André Cabral, de 45 anos, retrata esse comportamento. Depois de 25 anos trabalhando no setor de bares e restaurantes, ele passou por períodos de jornadas prolongadas e relata que chegou a trabalhar entre 12 e 15 horas por dia, além de ocasiões em que permaneceu até 36 horas seguidas em atividade.

Durante sete anos, atuou como gerente-geral de uma rede de restaurantes e açougues em São Paulo, com responsabilidade sobre cerca de 100 funcionários. Mesmo diante de problemas de saúde, evitava se afastar por acreditar que sua ausência poderia comprometer o funcionamento da operação.

Após permanecer 21 dias internado em uma UTI por causa da Covid-19, retornou ao trabalho apenas quatro dias depois da alta. Também adiou durante anos uma cirurgia para tratar uma hérnia por receio de ficar afastado.

Com o passar do tempo, a sobrecarga e os conflitos profissionais afetaram sua saúde mental. André recebeu diagnóstico de burnout, passou a utilizar medicamentos controlados para ansiedade e depressão e posteriormente desenvolveu hipertensão.

A situação mudou sua percepção sobre a relação entre trabalho e saúde. Em um novo emprego, com jornada reduzida e menos responsabilidades, ele afirma ter recuperado parte da qualidade de vida, embora continue fazendo acompanhamento médico.

“Minha saúde ficou em segundo plano. Eu achava que, se parasse por 15 dias, a operação não iria funcionar. A gente se sacrifica demais por um CNPJ. No fim, nenhum CNPJ vale o nosso CPF. Trabalho a gente recupera. Saúde, muitas vezes, não”, declara André.

Presenteísmo também pode acontecer no trabalho remoto

O fenômeno não está restrito aos ambientes presenciais. Com a possibilidade de trabalhar diante do computador, profissionais também podem continuar conectados durante períodos de doença.

Esse comportamento é chamado de presenteísmo digital e pode dificultar ainda mais a percepção de que o trabalhador não está em condições adequadas para exercer suas funções.

Para Isadora Gabriel, diretora de Recursos Humanos (CHRO) da Flash, o presenteísmo pode passar despercebido porque o profissional continua participando das atividades.

“O profissional está presente, participa das reuniões e cumpre sua jornada. Mas estar no escritório ou online não significa estar em condições de entregar o melhor desempenho”, explica.

Segundo a especialista, o esgotamento pode contribuir para erros, perda de eficiência e agravamento dos problemas de saúde. Por isso, ela aponta a importância de ações voltadas à saúde mental e da preparação das lideranças para reconhecer sinais de exaustão.

“Quando colaboradores continuam trabalhando mesmo emocionalmente esgotados, aumentam os riscos de erros, queda de eficiência e agravamento do quadro de saúde.”, conclui a diretora.

Para Elcio Paulo Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, os resultados reforçam a necessidade de uma mudança cultural nas empresas, para que o trabalhador consiga cuidar da saúde sem acreditar que isso colocará sua carreira ou sua imagem profissional em risco.

Quais são os impactos de trabalhar doente?

O médico do trabalho Ricardo Pacheco, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Segurança e Saúde no Trabalho (Abresst), define o presenteísmo como uma situação em que o trabalhador está fisicamente presente, mas tem sua capacidade de entrega comprometida.

De acordo com o especialista, problemas como febre, dores intensas ou o uso de determinados medicamentos podem afetar reflexos e concentração. Em atividades que exigem atenção constante, isso pode elevar a possibilidade de erros e acidentes.

O impacto também pode alcançar as empresas, com consequências relacionadas a retrabalho, redução de produtividade, acidentes e disseminação de doenças entre colegas.

O levantamento apresentado na pesquisa reforça essa preocupação: quase nove em cada dez trabalhadores entrevistados consideram que trabalhar doente pode aumentar, total ou parcialmente, o risco de erros ou acidentes.

O que fazer quando o trabalhador precisa se afastar?

De acordo com a advogada trabalhista Elisa Alonso, quando o trabalhador apresenta um atestado médico, a finalidade do documento é justamente permitir o afastamento necessário para sua recuperação. Por isso, segundo a especialista, o empregado não deve continuar executando normalmente suas atividades durante o período indicado para afastamento.

“Autorizar ou exigir a continuidade das atividades pode agravar o quadro de saúde e gerar consequências trabalhistas para o empregador, especialmente quando houver prejuízos ao trabalhador.”, explica.

A avaliação sobre a capacidade de retorno ao trabalho cabe ao profissional de saúde. Assim, o empregador não deve determinar que o trabalhador retorne antes do prazo estabelecido.

Durante uma licença médica, contatos pontuais relacionados a questões administrativas podem ocorrer, mas o trabalhador não deve ser cobrado para executar tarefas, cumprir metas ou participar normalmente das atividades profissionais.

Trabalhador pressionado a trabalhar doente pode guardar provas

Em situações nas quais o empregado é pressionado a continuar trabalhando durante um afastamento médico, a orientação apresentada pela advogada é comunicar formalmente a empresa sobre a condição de saúde e preservar documentos que possam demonstrar eventuais cobranças.

Mensagens, e-mails e outros registros podem ajudar a comprovar que a empresa tinha conhecimento do afastamento e, eventualmente, das pressões para continuidade do trabalho.

Segundo a especialista, situações envolvendo exigência de trabalho durante afastamento, pressão para trabalhar sem condições de saúde, descontos indevidos por faltas justificadas, punições pelo exercício de direitos, assédio relacionado à condição de saúde, possível demissão discriminatória e prejuízos decorrentes de condutas ilícitas do empregador podem ser avaliadas pela Justiça do Trabalho.

Transtornos como ansiedade, depressão e burnout também exigem atenção e podem justificar afastamentos quando houver indicação médica.

“Caso o trabalhador sofra ameaças, constrangimentos, pressão para trabalhar durante a licença ou uma dispensa possivelmente discriminatória, a situação poderá ser avaliada pela Justiça do Trabalho”, completa.

(Com informações de g1)

(Foto: Reprodução/Magnific)

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