Sentir culpa ao avisar no trabalho que está doente pode estar relacionado tanto à forma como o trabalhador enxerga sua própria atividade profissional quanto à cultura do ambiente onde trabalha. O fenômeno, conhecido como presenteísmo, ocorre quando a pessoa comparece ao trabalho mesmo sem estar em condições adequadas de saúde.
Pesquisas apontam que entre um terço e metade dos trabalhadores no Reino Unido continuam trabalhando mesmo quando estão doentes. Especialistas destacam que esse comportamento pode ter diferentes causas, como o medo de parecer pouco comprometido, a identificação excessiva com a profissão e a pressão exercida pelo próprio ambiente de trabalho.
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Por que algumas pessoas trabalham mesmo doentes?
A relação que cada trabalhador estabelece com o emprego pode influenciar sua decisão de se afastar quando está doente. Para algumas pessoas, a profissão ocupa um espaço central na própria identidade. Na psicologia organizacional, esse fenômeno é associado à chamada centralidade do trabalho.
Quando a atividade profissional está fortemente ligada à identidade pessoal, ficar longe do trabalho pode provocar a sensação de estar deixando de cumprir uma parte importante de quem se é.
A psicóloga Audrey Tang aponta que essa tendência pode aparecer com frequência em profissões relacionadas ao cuidado, como medicina, enfermagem e ensino. Nesses casos, existe uma forte disposição para continuar trabalhando mesmo diante de problemas de saúde.
O receio de ser considerado fraco, preguiçoso ou pouco comprometido também pode pesar na decisão. Para trabalhadores que estão no início da carreira, a preocupação pode ser maior.
“É mais provável que estejam no início da carreira e não queiram causar uma impressão negativa.”, explica Tang.
Ambiente de trabalho também influencia o presenteísmo
A cultura da empresa ou da instituição pode contribuir diretamente para que trabalhadores tenham dificuldade de tirar uma licença médica.
Quando uma equipe está sobrecarregada e não existe cobertura para quem precisa se ausentar, o funcionário pode sentir que sua falta vai transferir ainda mais tarefas para os colegas. Esse sentimento pode gerar culpa e dificultar a decisão de permanecer em casa.
Segundo a psicóloga Tara Quinn-Cirillo, ambientes que colocam a produtividade acima da saúde podem estimular sentimentos de culpa e vergonha. Nesses locais, pode surgir uma cultura de “seguir em frente”, mesmo quando o trabalhador deveria estar descansando.
A forma como gestores reagem também transmite uma mensagem para toda a equipe. Quando um funcionário é elogiado por continuar trabalhando mesmo doente, por exemplo, os demais podem interpretar que comparecer nessas condições é um comportamento valorizado.
Quando faltas por doença são constantemente questionadas ou recebidas de maneira negativa, o medo de julgamento pode fazer com que trabalhadores deixem de buscar o descanso necessário.
“O papel da culpa e da vergonha é significativo em uma organização tóxica que prioriza a produtividade em detrimento da saúde e do bem-estar. Em um ambiente de trabalho saudável, as pessoas devem poder ter conversas abertas e honestas sobre bem-estar e dias de licença médica”, diz Quinn-Cirillo.
Como identificar quando é melhor não trabalhar
Nem sempre é fácil determinar quando uma pessoa está doente demais para trabalhar. Em situações de sintomas físicos mais intensos, porém, existem sinais claros de que o repouso é necessário.
Casos envolvendo vômitos, diarreia ou febre, por exemplo, podem comprometer a capacidade de desempenhar as atividades profissionais adequadamente. No caso de sintomas respiratórios, a decisão pode ser mais difícil, especialmente quando existe a possibilidade de trabalhar remotamente.
A saúde mental também deve ser considerada nessa avaliação. Para Quinn-Cirillo, a questão central é verificar se a pessoa mantém condições físicas ou mentais de realizar seu trabalho.
Alguns sinais podem ajudar nessa percepção: dificuldade para relaxar depois do expediente, alterações no sono e redução da capacidade de cuidar das próprias necessidades básicas.
Quando o trabalho começa a prejudicar o autocuidado e o descanso, isso pode indicar que o corpo e a mente precisam de uma pausa.
Culpa por faltar ao trabalho pode ser um sinal de alerta
O sentimento de culpa ao comunicar uma doença não deve ser analisado apenas como uma característica individual. A relação com o trabalho e a cultura da organização também podem ajudar a explicar por que alguém decide trabalhar mesmo sem estar bem.
Tratar a saúde física e mental como parte das condições necessárias para o trabalho ajuda a mudar a lógica de que estar presente a qualquer custo é sinal de comprometimento.
“Sua capacidade de cuidar de si mesmo está mudando? Você consegue relaxar do trabalho? Seu sono está bom?”, questiona a psicóloga Quinn-Cirillo sobre como avaliar o trabalho.
(Com informações de BBC via g1)
(Foto: Reprodução/Magnific)







