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Promessa contrasta com relatos de profissionais submetidos a jornadas extensas

IA promete reduzir jornada, mas trabalhadores de big techs relatam semanas de até 90 horas

A promessa de que a inteligência artificial (IA) permitirá reduzir o tempo dedicado ao trabalho contrasta com relatos de profissionais de grandes empresas de tecnologia que enfrentam jornadas extensas, incluindo períodos superiores a 90 horas por semana. Funcionários e ex-funcionários de empresas como OpenAI, Anthropic, Meta e Google relatam uma rotina marcada por trabalho noturno, fins de semana e pressão por resultados.

A contradição coloca em debate um dos principais argumentos apresentados por empresas que desenvolvem inteligência artificial: o de que ferramentas capazes de automatizar tarefas poderiam aumentar a produtividade e, consequentemente, liberar tempo para os trabalhadores.

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Semana de quatro dias ainda não foi testada pela OpenAI

A OpenAI chegou a defender publicamente que as empresas começassem a experimentar uma semana de trabalho de quatro dias, sem redução salarial. A proposta partia da expectativa de que o avanço da inteligência artificial aumentaria significativamente a produtividade humana.

Apesar disso, um ex-funcionário ouvido pela BBC afirmou que a própria OpenAI não chegou a colocar esse modelo em prática durante o período em que ele trabalhou na empresa.

Segundo o relato, a rotina interna era marcada por reuniões emergenciais, trabalho aos sábados e domingos e avaliações de desempenho consideradas rigorosas. O profissional afirmou que trabalhava pelo menos 70 horas por semana na OpenAI.

“Você vai lá no sábado ou no domingo só para colocar o trabalho em dia ou para garantir que nada esteja quebrado”, afirmou.

Sprints podem levar a jornadas superiores a 90 horas

Na indústria de tecnologia, períodos de trabalho intensivo, conhecidos como “sprints”, costumam ocorrer antes do lançamento de produtos ou funcionalidades. A diferença, segundo os relatos apresentados, é que esses períodos podem se prolongar por semanas em empresas que atuam fortemente no desenvolvimento de inteligência artificial.

Profissionais consultados para a reportagem relataram que, na OpenAI e na Anthropic, esses períodos podem ultrapassar 90 horas de trabalho em uma semana.

Um trabalhador que deixou a OpenAI afirmou que atualmente atua em outra empresa de IA, onde sua rotina regular fica entre 50 e 60 horas semanais, embora também enfrente jornadas mais longas durante os chamados sprints.

A situação mostra como a incorporação de novas ferramentas não necessariamente resulta, por si só, em redução do tempo dedicado ao trabalho. Em alguns casos, o ganho de produtividade pode vir acompanhado de novas demandas e maior pressão por entregas.

Meta amplia pressão sobre equipes de inteligência artificial

Na Meta, funcionários e ex-funcionários relataram que profissionais foram direcionados para equipes responsáveis por projetos considerados urgentes de inteligência artificial. Segundo os relatos, essas mudanças ocorreram de maneira abrupta e, em determinados casos, os trabalhadores teriam pouca possibilidade de recusar a transferência.

“Eles simplesmente te transferem. Você não pode dizer não — ou, se disser, tem que pedir demissão”, contou o ex-funcionário.

As equipes envolvidas nesses projetos também teriam enfrentado jornadas prolongadas, com trabalho até tarde da noite, durante fins de semana e sensação de disponibilidade permanente.

A situação estaria relacionada ao esforço da empresa para desenvolver novas ferramentas de inteligência artificial e estruturas capazes de avaliar o desempenho dos modelos em diferentes tarefas.

Para um ex-funcionário ouvido na reportagem, parte desse trabalho consiste justamente em desenvolver sistemas capazes de reproduzir atividades realizadas por seres humanos. O profissional classificou esse processo como um trabalho que parece não ter fim.

IA também aumenta carga de trabalho de profissionais que não desenvolvem a tecnologia

Os efeitos sobre a jornada não estariam restritos aos trabalhadores diretamente envolvidos na criação de ferramentas de inteligência artificial.

Um ex-funcionário do Google relatou que deixou a empresa após perceber impactos negativos da IA sobre sua rotina profissional. Entre os problemas citados estavam falhas em ferramentas internas de engenharia que exigiam trabalho até tarde da noite.

Segundo o relato, a situação teria se tornado mais frequente à medida que recursos de computação e armazenamento eram direcionados para projetos relacionados à inteligência artificial.

Após deixar a empresa, o profissional afirmou ter percebido melhora no sono e na saúde em geral. Para ele, a forte dependência de ferramentas de IA pode contribuir para um ambiente de trabalho marcado por pressão excessiva sobre os engenheiros.

Estudo aponta aceleração do ritmo e aumento da jornada

Pesquisas também colocam em dúvida a ideia de que a inteligência artificial necessariamente reduzirá o tempo de trabalho.

Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia em Berkeley acompanhou centenas de trabalhadores de uma empresa de tecnologia americana durante oito meses de utilização de ferramentas de IA. O levantamento identificou aumento no ritmo das atividades, ampliação da quantidade de tarefas assumidas e extensão da jornada ao longo do dia.

Uma das razões apontadas foi a necessidade de acompanhar e verificar continuamente os resultados produzidos pelas ferramentas.

Além disso, a economia de tempo obtida com a automação de determinadas atividades pode ser rapidamente preenchida por novas tarefas. Dessa forma, o tempo que seria liberado pela tecnologia acaba sendo absorvido por outras demandas.

“Isso leva a uma situação em que, mesmo que houvesse economia de tempo real, ela seria consumida pelas mudanças, pela implementação delas e pela garantia de que funcionassem”, disse o especialista em inovação do MIT, Neil Thompson.

A consequência é que uma redução de 20% no tempo necessário para determinadas atividades não necessariamente resulta em uma semana de quatro dias. Novas tarefas podem ocupar o período que seria destinado à redução da jornada.

Esse cenário ajuda a explicar por que o avanço da inteligência artificial convive com relatos de jornadas cada vez mais extensas entre profissionais que trabalham justamente no desenvolvimento e na utilização dessas tecnologias.

(Com informações de BBC via g1)

(Foto: Reprodução/Magnific)

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