A ideia de que subir na hierarquia corporativa é o principal objetivo profissional perdeu força entre muitos trabalhadores mais jovens. Pesquisas recentes indicam que, para parte da Geração Z e dos millennials, liderança deixou de ser sinônimo automático de sucesso. Hoje, equilíbrio, propósito, flexibilidade e segurança financeira passaram a ocupar lugar central nas escolhas de carreira.
Um levantamento da consultoria Deloitte, realizado em 2025, ajuda a explicar essa mudança. Segundo o estudo, apenas 6% dos entrevistados da Geração Z e dos millennials afirmaram que chegar a um cargo de chefia era sua principal meta profissional. Ao mesmo tempo, o cenário de preocupação com dinheiro cresceu de forma relevante: 48% da Geração Z e 46% dos millennials disseram não se sentir financeiramente seguros. Em 2024, esses índices eram menores, o que mostra uma piora em apenas um ano.
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A leitura desses dados, no entanto, não significa que os jovens rejeitem a liderança de forma absoluta. Para a professora e pesquisadora Lina Nakata, da FIA Business School, a interpretação de que a nova geração não quer liderar é um simplificação. No estudo Lugares Incríveis para Trabalhar, coordenado por ela, os jovens aparecem com uma propensão 32% menor de desejar cargos de liderança na comparação com a média dos profissionais, mas isso não representa ausência de ambição.
“Quando cada grupo jovem chega ao mercado de trabalho, ele vai se adaptando. Estar naquele ambiente muda percepções e avaliações, e as pessoas passam a enxergar outras possibilidades. No início da carreira, pode haver menos interesse pela liderança, mas isso se altera com o tempo. Quando a geração Y chegou ao mercado, falava-se exatamente a mesma coisa”, disse.
Entre os entrevistados de 18 a 22 anos, apenas 15% apontam a liderança como prioridade. Já na faixa de 33 a 39 anos, o índice sobe para 23%, o que reforça a ideia de que o interesse por cargos de gestão tende a crescer conforme a trajetória profissional avança. Na avaliação de Nakata, no início da carreira, ocupar uma função de chefia nem sempre está entre as ambições mais imediatas.
A pesquisadora afirma que os jovens não deixaram de enxergar valor na liderança, mas passaram a condicioná-la a fatores como identificação com a empresa, coerência entre discurso e prática e percepção de que a função realmente compensa. Em outras palavras, liderar continua sendo uma possibilidade, desde que haja sentido no caminho até lá.
Essa mudança também dialoga com uma revisão mais ampla sobre o que significa sucesso profissional. Se antes o modelo mais valorizado estava associado a subir na carreira, ampliar o salário e conquistar status, hoje muitos jovens questionam esse roteiro pronto. A crítica ao excesso de trabalho, à cultura do desgaste e à ideia de que viver sob pressão é algo natural aparece com mais força entre os mais novos.
O caso do social media Mateus Araújo, de 28 anos, ilustra esse movimento. Ele recusou uma proposta para coordenar sua equipe porque entendeu que o cargo exigiria um perfil muito diferente do seu. A decisão levou em conta não apenas a mudança de responsabilidades, mas também a perda de uma rotina que já considerava estável e sob controle.
“Ao aceitar a proposta, eu teria de lidar com demandas mais imprevisíveis, uma rotina presencial mais intensa e mais interações com colaboradores e parceiros. E, provavelmente, por uma remuneração que eu não considerava suficiente. Minha paz e uma rotina mais previsível têm muito mais peso para mim”, afirma.
No lugar da ascensão hierárquica como meta principal, Araújo valoriza estabilidade, qualidade de vida e flexibilidade para atuar como freelancer. Ainda assim, ele não descarta assumir uma posição de liderança no futuro. O que mudou foi a forma de pesar o custo e o benefício de cada passo profissional.
Outro fator que ajuda a explicar esse comportamento é a longevidade. Com a expectativa de vida maior, cresce também a percepção de que a vida profissional será mais longa e, por isso, mais exigente em termos de energia, tempo e saúde mental. A pesquisa da Deloitte mostra que cerca de 40% da Geração Z e dos millennials se preocupam com a possibilidade de não conseguirem se aposentar com conforto financeiro.
“Hoje temos uma expectativa de vida muito mais alta. Isso faz com que saibamos que teremos de trabalhar por mais tempo, independentemente do motivo. E também percebemos que os jovens querem uma carreira mais equilibrada, não necessariamente centrada na busca por um cargo de liderança. É uma tendência global”, explica Lina Nakata.
Esse cenário faz com que muitos jovens pensem desde cedo em sustentabilidade de carreira. A liderança, nesse contexto, deixa de ser vista apenas como promoção e passa a ser avaliada como uma função que exige mais responsabilidade, mais pressão e, muitas vezes, uma remuneração que nem sempre compensa o peso adicional. Em vez de subir a qualquer custo, cresce o interesse por trajetórias horizontais, nas quais é possível se desenvolver sem necessariamente assumir um cargo de chefia.
Os dados também mostram que propósito segue sendo um fator decisivo. Para 89% da Geração Z e 92% dos millennials, trabalhar com sentido é importante para a satisfação e o bem-estar. Isso ajuda a entender por que tantas pessoas jovens priorizam flexibilidade, equilíbrio e condições reais de permanência no emprego, em vez de perseguirem uma ascensão rápida.
A mudança de comportamento pressiona empresas e gestores a reverem planos de carreira, estratégias de retenção e políticas internas. Se os jovens não se interessam automaticamente por cargos de liderança, é porque esperam mais do que promessa de crescimento: querem ver vantagens concretas, reconhecimento, qualidade de vida e coerência no ambiente de trabalho.
A liderança, portanto, não desaparece do horizonte profissional dos mais novos. Ela apenas deixa de ser o único destino possível. Para conquistar essa nova geração, as empresas precisam demonstrar que assumir um cargo de chefia realmente vale a pena, não apenas em termos de status, mas de condições reais de trabalho.
(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Magnific)







