Presidente do Sebrae defende fim da escala 6×1: ‘modelo arcaico’

O presidente nacional do Sebrae, Décio Lima, considera positiva a proposta que dá fim à escala 6×1, em tramitação na Câmara dos Deputados. Para ele, a redução da jornada sem redução salarial representa “a eliminação de um atraso” e trará ganhos de produtividade e qualidade de vida para trabalhadores e empreendedores.

“Vejo como um passo necessário de modernização. A escala 6×1 é um modelo arcaico, herdado do sistema fordiano de mais de 100 anos atrás”, afirmou Lima em entrevista à IstoÉ Dinheiro. “Um processo produtivo com aquela visão antiga é inimaginável dentro de um contexto de uma economia moderna.”

Para ele, a mudança deve ser compreendida para além dos custos imediatos. “Olhar apenas para a planilha de custos momentânea é uma visão perversa e equivocada. Esse custo deve ser comparado ao crescimento econômico e à acumulação de riqueza das grandes cadeias. Estamos falando de modernizar relações”, argumentou.

Levantamento da 9ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, realizado pelo Sebrae, indicou que a maioria dos empreendedores avalia o fim da escala 6×1 como positivo ou neutro para seus negócios. Cerca de 32% dos entrevistados, no entanto, consideram que a medida pode ser prejudicial, especialmente nos setores de beleza, academias, logística, agronegócio e economia criativa.

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Para Décio Lima, o resultado reflete a natureza da pequena economia. “O pequeno empreendedor brasileiro, em sua maioria, é um ex-trabalhador que se libertou do modelo fordista. Ele busca qualidade de vida e sabe o valor da saúde mental”, afirmou.

“A pequena economia é solidária e aglutinativa. Esse empresário entende que, se o colaborador estiver feliz e descansado, a entrega será melhor. Ele não trabalha apenas pela ‘gula do mercado’, mas pela sobrevivência e bem-estar coletivo.”

Questionado sobre estudos que apontam baixa produtividade do trabalhador brasileiro, o presidente do Sebrae relacionou o desempenho às condições de trabalho atuais. “O baixo rendimento é fruto de um modelo ‘caquético’. A economia brasileira precisa se modernizar”, disse, citando o economista e Nobel Daniel Kahneman. “Se o trabalhador atua sob um regime que beira o conceito escravocrata, a produtividade sofre. Quando as pessoas trabalham com entusiasmo e paixão, o resultado é superior.”

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Lima rebateu críticas de setores organizados do comércio e serviços. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou parecer técnico-econômico estimando que a redução da jornada para 36 horas semanais demandaria R$ 358,1 bilhões por ano em ajustes, com aumento de 21% na folha de pagamento.

“Essa planilha de custos tem que ser comparada com o crescimento econômico”, respondeu o dirigente. “As dificuldades setoriais têm tempo para se adaptar, têm o Sebrae para prepará-las. Nós, no ano passado, atendemos 65 milhões de brasileiros e brasileiras. Estamos preparados para protegê-las.”

Segundo ele, o resultado final da mudança será positivo para todos. “Com o fim da escala 6×1, eliminamos um atraso histórico. O Brasil ganha dignidade humana e, consequentemente, ganha vigor econômico. Quanto mais abelha, mais mel, a economia cresce”, concluiu.

A PEC que propõe o fim da escala 6×1 deve ser votada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara em março, com previsão de votação pelo plenário até maio, conforme cronograma apresentado pelo presidente da Casa, Hugo Mota.

Com informações de IstoÉ Dinheiro
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

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