Em um gesto considerado histórico dentro da Igreja Católica, o papa Leão XIV pediu perdão publicamente pelo envolvimento da instituição religiosa com a escravidão ao longo da história. A declaração foi publicada nesta segunda-feira (25) em sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas, documento em que o pontífice também debate os impactos da inteligência artificial e das novas formas de exploração humana.
A manifestação rompe uma barreira inédita da Santa Sé. Embora outros papas já tenham condenado a escravidão em diferentes momentos, esta é a primeira vez que um líder da Igreja reconhece explicitamente a responsabilidade institucional pela legitimação da escravidão durante o período colonial.
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No texto, Leão XIV afirma que é impossível ignorar o sofrimento imposto a milhões de pessoas escravizadas ao longo dos séculos, declarando um pedido de perdão pelas violações cometidas contra a dignidade humana.
“É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a humilhação suportados por tantos, em nítido contraste com sua imensurável dignidade como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor. (…) Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, afirmou.
O pronunciamento também relembra decisões históricas tomadas pela Igreja durante a expansão marítima europeia, como as bulas papais emitidas no século XV que concederam respaldo à Coroa portuguesa para conquistar territórios e escravizar povos considerados “infiéis”. Essas determinações ajudaram a consolidar estruturas coloniais que impactaram diretamente países como o Brasil.
Na encíclica, o pontífice reconhece que tanto a sociedade quanto a própria Igreja demoraram séculos para condenar plenamente a escravidão. Segundo ele, a incompatibilidade entre a fé cristã e a escravização humana levou muito tempo para ser assumida oficialmente pela instituição religiosa, deixando marcas profundas na memória histórica do cristianismo.
“Não podemos negar ou minimizar a demora com que tanto a sociedade quanto a Igreja vieram a denunciar o flagelo da escravidão”, disse.
Além do reconhecimento histórico, o papa traçou paralelos entre a escravidão do passado e formas contemporâneas de exploração. O documento alerta para os riscos da revolução digital, especialmente em atividades ligadas ao trabalho precário, à extração de minerais raros utilizados em tecnologias de inteligência artificial e ao avanço de novas formas de colonialismo econômico.
Leão XIV também defendeu que governos, empresas e instituições religiosas assumam responsabilidade diante das transformações tecnológicas para evitar violações de direitos humanos no futuro. Segundo ele, o desenvolvimento tecnológico não pode ocorrer às custas da dignidade das pessoas trabalhadoras.
Após a divulgação do documento, a trajetória pessoal do novo papa se destacou. Pesquisas genealógicas realizadas nos Estados Unidos apontaram que o pontífice possui ascendência negra e branca, incluindo familiares ligados tanto à escravidão quanto à condição de escravizados. Antes de assumir o comando da Igreja, ele viveu por quase duas décadas no Peru, convivendo de perto com comunidades indígenas e populações vulneráveis da América Latina.
Nas últimas semanas, o papa também esteve em países africanos, onde voltou a mencionar os impactos históricos da escravidão. Em Angola, durante visita a um antigo centro do tráfico de pessoas escravizadas, o líder religioso relembrou o sofrimento vivido por gerações de africanos durante o período colonial.
Para ele, a humanidade precisa agir agora contra novas formas de exploração associadas à economia digital, para “evitar a necessidade de pedir perdão novamente no futuro por termos falhado em respeitar o tesouro da dignidade humana que é exigido por nossa fé”.
(Com informações de ICL Notícias)
(Foto: Ricardo Stuckert/PR)







