Dilma, devolva o Levy

Não há justiça social sem crescimento econômico, mas não há crescimento econômico duradouro sem soberania

*Brizola Neto

 “O triste destino dos países obrigados a recomprar manufaturados os produtos que exportam.” Foi desta forma que o estudante de Direito Getúlio Vargas, ainda no ano de 1906, recebera em Porto Alegre o então Presidente da Republica Afonso Pena. Já naquela época, início do século XIX, Vargas denunciava a dependência do Brasil em relação às economias industrializadas.

Quando chega ao poder pela revolução de 1930, que encerra a República Velha e dá fim a vergonhosa alternância de poder entre as aristocracias rurais de Minas e São Paulo, Getulio Vargas inicia um virtuoso período de desenvolvimento econômico e de conquista de direitos e garantias para o povo brasileiro. Seu governo organizou-se a partir de três princípios fundamentais: soberania nacional, desenvolvimento econômico e justiça social.

Foi desta forma que nos quinze anos de seu primeiro governo criou as bases econômicas para transformar um país exclusivamente agrário numa economia industrializada. Além disso, modificou o tratamento da questão social no país, antes vista como caso de policia e criou o regime de direitos e garantias do trabalho.

Os direitos foram consolidados na legislação trabalhista e o desenvolvimento completado em seu segundo governo, com atos de afirmação nacional, o maior deles a criação da Petrobrás. Nunca fomos tão desenvolvidos, nunca a classe trabalhadora gozou de tantos direitos.

Durante seus dois períodos na Presidência da Republica, Vargas enfrentou o ódio das elites destronadas, inconformadas com o ingresso dos trabalhadores no mundo dos direito e das garantias. Sofreu também ataques da oposição e da imprensa golpista, lideradas pela dupla Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand, testas de ferro de interesses estrangeiros em nosso país. Não admitiam ver o país superar a dependência econômica em relação às grandes economias mundiais, principalmente aos Estados Unidos.

Vargas resistiu até a exaustão. Quando já não era possível evitar o golpe arquitetado pelos representantes dos interesses antinacionais, em um ato heróico, pôs fim a própria vida. Mas deixou ao povo brasileiro o documento mais importante da nossa historia: a Carta Testamento.

Foi este documento histórico que esclareceu e mobilizou a nação para a defesa de seus direitos recém conquistados e para a defesa do projeto de desenvolvimento nacional. A coragem e o desprendimento do Presidente Vargas adiou as pretensões golpistas em dez anos.

A compreensão desse período denominado pela historiografia como a Era Vargas e o papel de seu protagonista, como libertador do país e emancipador do trabalhador brasileiro é fundamental para se entender os motivos que dividiram a esquerda brasileira depois da ditadura militar.

Mesmo após o suicídio de Vargas, da morte ou assassinato de Jango no exílio e dos mais de vinte anos sem liberdades democráticas o povo brasileiro não apagou da sua memória o trabalhismo brasileiro. Sua memória continuou viva na pregação de Leonel Brizola. Antes do golpe de 1964, Brizola demonstrou sua coragem na campanha da Legalidade que garantiu a posse de Jango em 1961. Depois, na primeira eleição para governadores em 1982, foi reconhecido pelo povo do Rio de Janeiro como o legitimo herdeiro Vargas, que assim o elegeu para comandar o Estado.

Entretanto, o abandono de um projeto de desenvolvimento nacional e a submissão a interesses estrangeiros, inviabilizou o país, ensejando uma nova classe de trabalhadores desconectados de Vargas e empregados nas multinacionais, principalmente nas montadoras de automóveis concentradas em São Paulo.

Que pesem as boas intenções dessa nova “classe operária” e de seus líderes sindicais em suas lutas por melhores salários e suas grandes mobilizações nas chamadas greves do ABC, que contribuíram inclusive para acabar com a ditadura, esses lideres não compreenderam as verdadeiras razões do golpe de 1964 e tudo o que justificava e ainda hoje justifica o atraso brasileiro, que é nossa submissão ou dependência aos interesses estrangeiros. Alguns de seus mais destacados líderes chegavam ao cúmulo de defender a presença das multinacionais no país alegando que estas pagavam melhores salários que a indústria nacional.

Quis o processo social brasileiro, deturpado pelas estruturas criadas pela ditadura, como a Rede Globo de Televisão, que depois de seguidos governos de representantes das elites antinacionais (Sarney, Collor e FHC) chegasse a Presidência da República um operário de carne e osso, oriundo das greves do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva. O líder do partido que desde 1989, com a derrota eleitoral de Brizola, passou a comandar a esquerda brasileira.

Hoje, ultrapassados 13 anos de governos do PT, tudo o que está aí nos leva a crer que estes ainda ignoram os ensinamentos de Vargas, provavelmente não compreenderam a Carta Testamento e, mesmo depois da morte de Leonel Brizola, seguem ignorando as lições do trabalhismo brasileiro. Não entenderam que um país não consegue distribuir uma riqueza que não produz, aprofundaram a desnacionalização da economia brasileira e, são obrigados a retroagir nos avanços produzidos nas áreas sociais, como a redução do desemprego, o aumento dos salários e o restabelecimento da rede de proteção social.

Tudo devido à crise econômica provocada pela incapacidade brasileira de produzir riquezas. Mais de cem anos após o discurso de Vargas para o Presidente Afonso Pena a economia brasileira continua sendo mera exportadora de produtos comuns (commodities) e importadora de produtos industrializados.

Os recentes avanços conquistados, baseados na expansão do consumo e no aumento da renda dos trabalhadores, mostram-se insustentáveis em um país que não resolveu sua dependência em relação aos países ricos. As perdas internacionais como diria Brizola, quebraram nosso pais.

Agora vivemos a vergonha de num governo eleito pela esquerda, termos que pedir socorro aos liberais entreguistas para acertar nossas contas com os interesses estrangeiros e “ajustar” nossa economia.

A nomeação para o cargo de Ministro da Fazenda do “chicagoboy” Joaquim Levy nos faz relembrar os terríveis anos dos Governos tucanos de FHC, o príncipe da moeda, autor da tese colonialista autodenominada Teoria da dependência que defende que o Brasil só será desenvolvido se estiver submetido aos interesses estrangeiros.

E o senhor Levy não perde tempo, logo que nomeado já disse a que veio, produziu com a chancela de Dilma e o apoio de Lula duas Medidas Provisórias (MPs 664 e 665) que retiram direitos dos trabalhadores como o seguro desemprego e o abono salarial. Reduziu ainda em cinquenta por cento os benefícios de pensões por morte. Em seu plano entreguista o garoto de Chicago elevou consideravelmente a taxa de juros (hoje em 13.25% e com tendência para novas altas), inviabilizando o crescimento econômico que num curto prazo levarão o país à recessão, ao arrocho salarial e ao desemprego.

O senhor Levy chegou a ter a ousadia de em recente viagem ao estrangeiro ameaçar entregar parte da nossa maior riqueza natural, as enormes reservas de petróleo do pré-sal brasileiro. Quer enfraquecer a Petrobrás que provavelmente ele gostaria de ver privatizada ou destruída.

Diante de tudo isso é hora do ex Presidente Lula retomar seus compromissos com a classe trabalhadora e reviver seus melhores momentos frente ao governo brasileiro quando com as mãos cheias de petróleo reconheceu Vargas e afirmou a soberania nacional, defendendo nossa riqueza da voracidade de lucros de multinacionais.

Já a Presidenta Dilma deveria relembrar de suas raízes trabalhistas, de seus vinte anos ao lado de Brizola e inspirada em sua coragem enfrentar os interesses estrangeiros que impedem o Brasil de desenvolver- se. Para isso precisa devolver o senhor Levy aos entreguistas.

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