Dia do trabalhador e as verdades expostas na pandemia de covid-19

A pandemia do coronavírus ressaltou a importância central dos trabalhadores à economia

A necessidade do isolamento social para conter a Pandemia de covid-19 nos impetra uma perspectiva em nosso cotidiano que remonta aos princípios do Dia do Trabalhador, comemorado neste 1º de Maio. Vivemos em um tempo em que estão ocorrendo mudanças profundas na forma como se organiza o trabalho, principalmente no Brasil. Em 2019, antes dos impactos da pandemia de covid-19, a população ocupada era de 93,6 milhões de pessoas e a população fora da força de trabalho atingiu 64,9 milhões de pessoas. No período do trimestre de junho a agosto de 2019, a taxa de desocupação já era de 11,8% – decorrentes das políticas econômicas vigentes no período.

Ao tempo que nos distanciamos dos modelos tradicionais de concentração de trabalhadores em grandes fábricas, tal como podemos ver nos registros das atividades de greve do ABC Paulista na década de 80, nascem novas formas de atividades produtivas que mudam as relações de trabalho. No entanto, apesar de todas as mudanças e modernizações do sistema financeiro, que abandona o processo produtivo, as imposições do isolamento social mostraram que a essência da força dos trabalhadores é fundamental para toda a economia e é a base da Nação. A paralisação das atividades por conta da covid-19 expôs a importância política dos novos trabalhadores, que apesar de estarem fragmentados e sem organização social ou política, os tornam alvos fáceis à exploração indiscriminada, a exemplo dos trabalhadores de aplicativos de entrega e transporte.

O Brasil e as crise simultâneas

O Brasil vive crises simultâneas em decorrência desta realidade. Além da pandemia, temos a crise política provocada pela Presidência da República, que tem manifestado de forma bastante transparente o desprezo pela vida dos trabalhadores. O cinismo do presidente Jair Bolsonaro é flagrante quando procura retomar as atividades produtivas do Brasil, afirmando que quer combater o desemprego, mas e o que o impedia de combater o desemprego antes da covid-19?

A uberização reinventou a desregulação do trabalho

A reinvenção do trabalho com a uberização de profissões tem contribuído com a fragmentação da ação dos trabalhadores causando, inclusive, uma crise de identidade. Essa crise de identidade também é uma crise de valores, que acaba constituindo uma nova moral que emerge, sem contexto histórico, nessas populações. Isso fica mais evidente quando questionamos quem é o trabalhador hoje? Seria aquele que tem carteira assinada, tal como na década de 80? Ou podemos ver pela perspectiva inversa, com a questão: quem não é trabalhador hoje? Não são trabalhadores os proprietários dos meios de produção, pois estes são empresários, além dos acionistas investidores do mercado financeiro. O restante da população, que tem sido identificada como empreendedores individuais, nada mais são do que trabalhadores que perderam suas garantias econômicas a partir de mecanismos jurídicos modernos, tais como a terceirização.

A uberização é uma falácia moderna, pois os trabalhadores dos aplicativos nada mais são do que funcionários sem vínculo empregatício, tendo em vista que são os proprietários dos aplicativos, os donos dos meios de produção. Essa crise de identidade está no centro da crise política e se mostra especialmente dramática para a população brasileira nos tempos de Pandemia de Covid-19, quando essas pessoas ficam à mercê de sua própria desgraça pessoal, sem as garantias econômicas tradicionais dos trabalhadores, sem os meios de produção e sem representantes políticos no governo, que foi eleito, em grande parte por esses trabalhadores que se compreendem como empresários.

Uma data de reflexão

Que neste 1º de Maio, em situação de isolamento social, possamos nos reinventar para enfrentar o “novo normal” pós pandemia. Que o período em que os trabalhadores e trabalhadoras aqui conceituados como todas as pessoas que vivem da força do seu trabalho, mas que não são proprietários dos meios de produção, nem acionistas do mercado financeiro, consigam se compreender como a unidade que move a economia. Que se compreendam neste contexto social para que possam reagir diante da crescente perda de direitos vindos da Reforma Trabalhista, Reforma da Previdência, e pelo ataque aos direitos sociais, que são mecanismos de equidade econômica e produção de Justiça Social, em uma sociedade republicana, democrática, autônoma e livre.

Por Leo Dahmer para Sul21

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