Nesta segunda-feira (19), às 18h, será realizado em São Paulo um ato público para lembrar os 50 anos da morte do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, ocorrida em 27 de janeiro de 1976, nas dependências do DOI-Codi do II Exército. O evento acontecerá na Rua do Carmo, nº 171, na Sé, antiga sede do Sindicato dos Metalúrgicos e atual sede do Sindicato dos Aposentados da Força Sindical – um local de forte simbolismo para a história do movimento operário brasileiro.
O presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto, estará presente no ato e convida todos os sindicalistas da central a se juntarem a ele e aos companheiros do movimento sindical nesta homenagem. “A mobilização é parte de um esforço permanente para preservar a memória das violações cometidas durante a ditadura militar e reafirmar o compromisso do movimento sindical com a democracia”, comentou.
LEIA: Casa da Moeda lança medalhas comemorativas dos 90 anos do salário mínimo; CSB participa
A programação incluirá o lançamento do livro “Carrascos da Ditadura”, de autoria do jornalista Jorge Oliveira, também diretor do documentário “Perdão, Mister Fiel!”. O livro que reconstrói a trajetória de Manoel Fiel Filho, aponta responsáveis por sua prisão, tortura e morte e analisa o funcionamento da repressão política no Brasil e no Cone Sul. Ao final do ato, o documentário também será exibido.

Durante a homenagem, será entregue a Medalha Manoel Fiel Filho, concedida a sindicalistas e militantes da luta operária como reconhecimento à resistência democrática e à defesa dos direitos dos trabalhadores durante o regime autoritário.
O evento terá transmissão ao vivo pelos sites da Fundação Astrojildo Pereira (FAP) e da Tutaméia e é uma iniciativa da FAP com apoio das centrais sindicais e entidades de direitos humanos. O objetivo é reafirmar os compromissos com memória, verdade, justiça e democracia, além de homenagear a trajetória de um trabalhador cuja morte se tornou símbolo das violações cometidas pelo Estado brasileiro durante a ditadura.
Quem foi Manoel Fiel Filho
Alagoano de Quebrangulo, Manoel Fiel Filho vivia em São Paulo desde os anos 1950. Trabalhou como padeiro e cobrador de ônibus antes de ingressar na indústria metalúrgica, onde atuava como prensista na empresa Metal Arte, no bairro da Mooca.
Em janeiro de 1976, Fiel foi preso por agentes do DOI-Codi dentro da própria fábrica, acusado de ter ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia seguinte, os órgãos de segurança divulgaram nota oficial afirmando que ele teria se enforcado na cela com as próprias meias — versão contestada por familiares e testemunhas, que relataram que ele usava chinelos sem meias no momento da prisão.
Na noite de 17 de janeiro de 1976, um veículo do Exército parou em frente à sua casa e entregou à esposa, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um saco plástico com suas roupas, informando que ele havia “se suicidado”. Quando o corpo foi liberado para o sepultamento, familiares observaram sinais de tortura na testa, nos pulsos e no pescoço. Apesar disso, o laudo oficial atestou a versão do suicídio.
Posteriormente, em ação judicial movida pela família, a União foi responsabilizada pela tortura e assassinato de Manoel Fiel Filho. Documentos encontrados nos arquivos do antigo DOPS indicaram que sua principal “acusação” teria sido receber o jornal Voz Operária. Depoimentos colhidos anos depois por jornalistas também apontaram que ele foi morto durante um interrogatório no DOI-Codi.
Impacto político da morte
A morte de Manoel Fiel Filho ocorreu em um contexto de tensão dentro do regime militar. Três dias após o episódio, o comandante do II Exército, general Ednardo d’Ávila Melo, foi afastado do cargo – um gesto que analistas interpretam como tentativa do governo Geisel de conter o desgaste político provocado pela repercussão do caso.
Embora não tenha gerado comoção pública equivalente à morte de Vladimir Herzog (1975), o episódio de Fiel Filho expôs a rotina de torturas nos órgãos de repressão e aprofundou fissuras entre a chamada “linha dura” militar e setores do governo que defendiam uma abertura política gradual.
Com informações da coluna de Luiz Carlos Azedo no Correio Braziliense







