A relação entre trabalho, dignidade e enfrentamento à violência de gênero foi o centro do debate do primeiro painel do Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB). Com o tema “Trabalho sem Violência: Mulheres, Dignidade e o Combate ao Feminicídio”, o debate reuniu a ex-ministra das Mulheres Cida Gonçalves e a ativista social Natália Boulos, com mediação da secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CSB, Antonieta de Faria.
Dirigentes sindicais e representantes de diferentes setores produtivos acompanharam a discussão, permitindo um debate amplo sobre as múltiplas dimensões da violência contra as mulheres – desde o ambiente doméstico até os impactos no trabalho e nas relações sociais.
Igualdade como preceito da democracia
Cida Gonçalves destacou que a igualdade entre homens e mulheres é condição essencial para a existência de uma sociedade democrática. “Não existe democracia sem igualdade, sem as mesmas condições que os homens – de trabalho, de espaço de poder”, afirmou.
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A ex-ministra lembrou que projeções internacionais indicam que o mundo ainda levaria 300 anos para se alcançar a igualdade plena entre homens e mulheres, o que evidencia a urgência de acelerar as transformações.
Para ela, a igualdade também é fundamental para que as mulheres tenham condições reais de romper situações de violência. “A nossa condição de igualdade é que vai nos permitir dizer a palavra ‘não’ e nos libertar de situações de violência”, disse.

Cida também destacou a dimensão global do problema. Segundo dados apresentados por ela, cerca de 840 milhões de mulheres no mundo já sofreram algum tipo de violência, sendo que 316 milhões foram vítimas de agressão física, muitas ainda na adolescência.
Ela destacou que a omissão social diante da violência cotidiana contribui para a perpetuação do problema. “Quando cada um de nós decide que não vai assistir a uma violência contra a mulher e ficar quieto, começamos de fato a enfrentar essa realidade”, afirmou.
Trabalho como caminho para romper o ciclo de violência
A ativista social Natália Boulos destacou que o enfrentamento à violência contra as mulheres passa necessariamente pela garantia de autonomia econômica. Segundo ela, o trabalho é um elemento central para que as mulheres consigam romper ciclos de violência.
“Nenhuma mulher consegue romper um ciclo de violência se não tiver trabalho e condições de recomeçar a vida”, disse.
Ela ressaltou que episódios de violência doméstica e familiar impactam diretamente a vida profissional das vítimas, provocando afastamentos do trabalho, queda de rendimento e dificuldades de permanência no emprego, e apontou como tudo isso se relaciona com o feminicídio.

“O feminicídio é a última forma de violência, porque aquela mulher não volta mais. Antes disso existem ameaças, agressões e humilhações que muitas vezes são ignoradas”, afirmou.
Para a ativista, enfrentar esse cenário exige ação coletiva, políticas públicas e regulamentação das plataformas digitais.
Misoginia nas redes sociais
Outro ponto central do debate foi o crescimento de discursos de ódio contra mulheres nas redes sociais. Natália Boulos mencionou a atuação de grupos digitais que disseminam conteúdos misóginos, como o movimento conhecido como “Red Pill”.
Ela contou que esses grupos se apresentam como espaços que ensinariam homens a “descobrir a verdade” sobre as relações entre homens e mulheres. “Eles dizem que estão ensinando os homens a encontrar a ‘verdade’ e se libertar. Mas que verdade é essa? A verdade de que as mulheres não prestam, são interesseiras e são tratadas como um troféu”, questionou.

Segundo observa a ativista, a misoginia difundida nesses espaços não é apenas um fenômeno cultural isolado, mas também está associada a interesses econômicos e políticos. “O ódio movimenta as redes sociais e gera lucro. Existe um modelo de negócio que se alimenta desse tipo de conteúdo e beneficia grandes empresas de tecnologia”, afirmou.
Natália defendeu que enfrentar esse cenário exige mobilização coletiva, políticas públicas e regulamentação das plataformas digitais. “Precisamos nos manifestar. A misoginia se sustenta justamente na falta de condições das mulheres de romper o ciclo de violência. Não há saída individual – é necessária ação coletiva e políticas públicas”, declarou.
No mesmo sentido, Cida Gonçalves reforçou a necessidade de enfrentar a violência também no ambiente digital. “Para mim, o ambiente digital é um cenário de guerra. A regulamentação das redes é necessária. Não podemos nos calar e nem aceitar. O ódio não é a expressão da liberdade”, afirmou.
Mobilização e papel do movimento sindical
Ao final do painel, participantes também compartilharam experiências pessoais e reflexões sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em diferentes contextos.
Natália Boulos destacou que a disputa de narrativas nas redes sociais também pode ser uma ferramenta de mobilização.
“Uma forma de mobilizar as pessoas hoje em dia é ocupar os ambientes digitais e disputar esses espaços para sermos vistas e ouvidas. Nunca foi fácil para nós, mas temos vitórias e conquistas e, principalmente, temos umas às outras. Estamos no caminho certo da unidade e do respeito à democracia”, afirmou.
Cida Gonçalves também ressaltou a importância da organização coletiva e do movimento sindical na defesa das trabalhadoras.
“Precisamos fazer um contraponto com aquilo que mais gostamos de fazer. Lutamos porque não aceitamos um sistema que maltrata e humilha as mulheres trabalhadoras. É por isso que temos os sindicatos. Juntas, estamos construindo ternura e solidariedade”, disse.
Encerrando o painel, Antonieta de Faria destacou que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa ser uma pauta central da agenda sindical e das políticas públicas.

“Nós, mulheres da CSB, junto ao Ministério das Mulheres, contribuímos com instrumentos de defesa para a formulação de políticas públicas de proteção às mulheres e de combate às atrocidades, mas a luta ainda está engatinhando. Precisamos do engajamento de toda a sociedade”, afirmou.
Para a dirigente, discutir trabalho e direitos das mulheres significa enfrentar todas as formas de violência que atingem as trabalhadoras.
“Falar de mulheres e trabalho significa falar sobre enfrentar todas as formas de violência que atingem as mulheres, dentro e fora do ambiente de trabalho, da violência simbólica à sistêmica, e tudo o que culmina no feminicídio”, concluiu.
Ao final, as painelistas e a mediadora receberam uma homenagem preparada pela CSB, entregue pela presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cristalina (GO), Erenilda de Assis.








