O segundo dia do Encontro Nacional da CSB teve uma programação intensa de debates, com quatro painéis que reuníram grandes especialistas e autoridades em temas centrais para a classe trabalhadora e o movimento sindical, com foco nos temas de inclusão e nas eleições de 2026 no período da tarde.
Após um dia todo de conteúdo e muito aprendizado, um ato político liderado pelo presidente da CSB, Antonio Neto, encerrou o dia e contou com a participação do secretário executivo do Ministério do Trabalho, Francisco Macena, o presidente municipal do PT de São Paulo e vereador, Hélio Rodrigues, e vereadores de diversas cidades do país que são sindicalistas ligados à central.
Importância das pautas de inclusão
Abrindo as discussões da tarde, o Painel 5 abordou a pauta da inclusão na negociação coletiva e teve como participantes a vice-coordenadora nacional da Coordenadoria Nacional da Liberdade Sindical (Conalis) do Ministério Público do Trabalho (MPT), Cristina Benedetti; da juíza do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (São Paulo), Luciana de Oliveira; e o sociólogo e técnico no Sistema de Acompanhamento de Informações Sindicais (SAIS) do Dieese, Luís Ribeiro.
O debate destacou como as negociações coletivas podem incorporar demandas de grupos historicamente afetados por desigualdades no mercado de trabalho.
“No nosso sistema da unicidade, o trabalhador que não se sente representado não pode formar uma outra entidade sindical. Isso significa que as entidades sindicais têm o benefício do monopólio, mas também o dever de representar todas as pessoas da categoria”, defendeu Cristina Benedetti.
Durante o painel, os participantes alegaram que a representatividade sindical depende diretamente da capacidade das entidades de compreender as diferentes realidades presentes na classe trabalhadora.
Os participantes ressaltaram que parte dos trabalhadores não se sentem prestigiados pelas pautas sindicais, o que contribui para o distanciamento entre as entidades e suas bases. Para isso, foi defendida a ampliação de políticas voltadas a questões de gênero, raça e classe que atendam grupos prejudicados.
“A classe trabalhadora não é homogênea. É preciso questionar quais são as pautas das mulheres, dos idosos, da população LGBTQIA+, dos imigrantes. O sindicato que não está pautando as mulheres, por exemplo, está fadado ao fracasso, ao insucesso, porque as mulheres são a maioria da classe trabalhadora”, declarou Luciana de Oliveira.
Com base em sua experiência como representante da Conalis, Cristina apresentou situações que demonstram lacunas existentes nas negociações coletivas. Entre os exemplos citados, esteve o caso de uma trabalhadora metalúrgica vítima de violência doméstica que sofreu descontos salariais e advertências no emprego por faltas relacionadas à situação de violência, sem que houvesse previsão de proteção ou acolhimento nem pela empresa e nem pelo sindicato da categoria.
“Os acordos de negociação coletiva não dispõem sobre garantia de emprego ou período de abono de faltas para a mulher vítima de violência doméstica, nem prevê a responsabilização de empresas que se recusam a usar o nome social de uma trabalhadora trans, por exemplo. A classe trabalhadora brasileira é composta por 44% de mulheres e 56% de pessoas pretas e pardas. A representatividade é o quanto efetivamente os trabalhadores sentem-se acolhidos e veem na entidade alguém que se articula pelas suas demandas”, concluiu.
O painel reforçou ainda que as mudanças sociais exigem novas estratégias sindicais. Os palestrantes defenderam que inclusão e proteção social devem caminhar ao lado de pautas salariais e econômicas, ampliando o papel das entidades na defesa da permanência digna dos trabalhadores no mercado formal.
“Em geral, cada grupo de trabalhadores tem suas demandas de acesso ao emprego. Todo grupo específico luta pelo seu reconhecimento e dignidade. É preciso reconhecer as condições específicas de cada grupo, sejam elas sociais, biológicas e todas as outras. Temos que pensar em como resgatar o trabalhador, e não esperar que o trabalhador venha até o sindicato”, complementou Luís Ribeiro.

Eleições 2026: o Brasil em disputa e o papel da classe trabalhadora
O 6º e último painel do dia teve como foco as eleições de 2026 e o papel das entidades sindicais na mobilização da classe trabalhadora, em contexto de forte disputa política e institucional sobre quais devem ser as pautas prioritárias do país.
O debate contou com a participação da presidente do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, do coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz, e do presidente da CSB, Antonio Neto.
Rita Serrano destacou que a disputa política ultrapassa o campo econômico e também envolve valores culturais e sociais. Segundo ela, a hegemonia de pensamento presente na sociedade influencia diretamente a percepção sobre o sindicalismo, o serviço público e os direitos sociais.
A dirigente apontou que a classe trabalhadora enfrenta uma disputa de projeto de sociedade e afirmou que o sindicalismo possui papel estratégico na defesa da democracia e das condições dignas de trabalho.
Durante sua fala, Serrano também enfatizou que temas como a regulamentação da Convenção 151 da OIT e a redução da jornada de trabalho vêm ganhando espaço no Congresso Nacional graças à atuação das entidades sindicais.
Para ela, o desafio dos sindicatos é ampliar o diálogo com a sociedade e enfrentar discursos que associam direitos trabalhistas à perda de produtividade ou prejuízos econômicos, defendendo que o movimento sindical precisa disputar narrativas e fortalecer uma visão voltada à valorização da dignidade humana e da coletividade.
“É através do sindicato que o trabalhador pode disputar a realidade hegemônica. Cabe a nós discutirmos esses conceitos hegemônicos, especialmente em diálogo com nossos pares, mas também com os diferentes. O que está em disputa no Brasil nas eleições deste ano é projeto. Do lado deles, um projeto de disputa, de competição e de individualidade. Precisamos mudar esses conceitos”, declarou.
Clemente Ganz afirmou que o debate eleitoral de 2026 não se limita à escolha da Presidência da República, mas também passa pela composição do Congresso Nacional. Segundo ele, para que propostas voltadas aos trabalhadores avancem, será necessário eleger parlamentares dispostos a negociar e viabilizar projetos ligados ao desenvolvimento econômico, à valorização social e aos direitos trabalhistas.
“Vencer as eleições é, portanto, afirmar que a sociedade quer este projeto, mas para além disso é afirmar que você terá condições de exercer as políticas com as quais se comprometeu. Vamos eleger um presidente, mas precisamos também eleger um congresso capaz de permitir que o presidente exerça seu cargo. Precisamos reformular o Congresso para que esse projeto de governo tenha viabilidade”, disse.
Ganz ressaltou ainda que as centrais sindicais estão mobilizadas em torno de pautas consideradas prioritárias, como a redução da jornada de trabalho sem redução salarial e o fim da escala 6×1. De acordo com ele, as entidades iniciaram articulações assertivas com parlamentares para ampliar o apoio às propostas em tramitação.
Outra frente de disputa citada foi a regulamentação da negociação coletiva no serviço público, considerada estratégica para garantir condições dignas de trabalho para os servidores.
Ao defender maior participação política da classe trabalhadora, Antonio Neto destacou a importância do voto como instrumento de representação social. Em sua avaliação, muitas decisões que afetam diretamente o cotidiano da população, como legislação sobre moradia, relações de trabalho e direitos sociais, dependem da atuação do Congresso Nacional. Para o líder sindical, compreender o peso político do voto é essencial para fortalecer projetos alinhados aos interesses dos trabalhadores.
“Quando elejo um parlamentar, estou dando uma procuração para que ele me represente. Essa é a importância do voto. É fenomenal. É algo que para todas as pessoas tem o mesmo peso”, afirmou.
Neto também criticou setores sindicais que apoiam projetos políticos contrários aos direitos trabalhistas e à estrutura sindical. Segundo ele, o movimento sindical precisa atuar de forma organizada e consciente para fortalecer candidaturas e propostas comprometidas com políticas públicas voltadas à proteção social, à valorização do trabalho e à ampliação dos direitos da classe trabalhadora nos próximos anos.
Para o presidente, o processo eleitoral deve ter o apoio e a certeza de ação da CSB pela influência direta do resultado do pleito sobre temas como a redução da jornada de trabalho, valorização do serviço público e fortalecimento da negociação coletiva. “Temos um compromisso com o nosso projeto”, concluiu.

Ato político encerra a programação do dia
O evento foi encerrado com um ato político, fechando a programação dos painéis e reunindo parlamentares, autoridades, lideranças sindicais e representantes de diferentes setores, incluindo quatro vereadores de entidades ligadas à CSB: Marcelo Belmudes, de Candiota (RS), José Abreu, o “Jack”, de Caxias do Sul (RS), Luciana Bernardo, de Itatiba (SP) e Silvio Dias, de Feira de Santana (BA).
Segundo Antonio Neto, é necessário articulação para que toda a população participe das discussões e esteja engajada politicamente, citando o caso da Federação dos Municipários do Estado do Rio Grande do Sul (Femergs), que conseguiu eleger 88 vereadores ligados à entidade na última eleição.
“Precisamos fomentar os companheiros. Me comprometo a dar depoimento e visitar os sindicatos para colocar em prática tudo que for necessário para ajudar a nossa luta. Não é fácil, mas precisamos trabalhar para eleger, em todos os municípios, candidatos que temos certeza que estarão do nosso lado”, anunciou.
Para a vereadora de Itatiba Luciana Bernardo (PDT), “é muito difícil fazer essa luta nos municípios, em um meio tão conservador. Mas sabemos que quando um sindicalista abraça uma causa, vai até o fim”.
O vereador em Feira de Santana Silvio Dias (PT) destacou a importância de um trabalho de conscientização. “Vamos mostrar que o nosso lado é o lado do povo. A próxima campanha salarial começa agora, nessa eleição. Se queremos ter voz precisamos ocupar esse espaço. Se não fizermos isso, vamos estar mantendo um Congresso que não nos representa”, disse.
O vereador e dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul, José Abreu Jack (PDT), defendeu o retorno dos sindicatos às bases.
“Temos que entender o momento que estamos vivendo e ter grandeza de compreender que precisamos voltar às bases, olhar no olho do trabalhador e convencê-los da importância de votar em quem representa os interesses deles, não em alguém que vai retirar direitos. Vamos, através das urnas, derrotar aquilo que mais fere o trabalhador, que é o cansaço”, disse.
Vereador por São Paulo, Hélio Rodrigues (PT) manifestou entender a atualidade como um momento histórico para o movimento sindical.
“Temos colegas sofrendo ataques em diversos países do mundo. O chamado que essa central faz é fundamental para que a gente possa reeleger o presidente Lula”.
Segundo o secretário executivo do Ministério do Trabalho Emprego (MTE), Francisco Macena, o acordo fechado entre governo federal e Câmara dos Deputados deve encaminhar a PEC da redução da jornada de trabalho para 40h sem redução do salário, estabelecer duas folgas semanais e prever o fortalecimento das negociações e acordos coletivos para reger as necessidades específicas de cada categoria.
“Além da PEC, tem um projeto de lei para categorias com regimes próprios, com escalas e jornadas específicas, direcionando essas situações para a negociação coletiva. A classe trabalhadora está há 20 anos esperando, não temos mais condições de esperar”, afirmou.
Com programação até sábado (16), quando haverá deliberação da direção nacional da central, o Encontro da CSB se consolida como espaço de articulação política e discussão sobre os principais desafios enfrentados pelo sindicalismo brasileiro em um contexto de mudanças tecnológicas, disputas políticas e transformações nas relações de trabalho.








