Segundo o artigo “Na aposentadoria não se apresse em redesenhar sua vida — ouça o que a vida tem a dizer”, publicado pela revista norte-americana Psychology Today, o interrompimento do ciclo profissional pode provocar o que a sociologia descreve como “a morte social” do indivíduo.
O fenômeno costuma ocorrer sobretudo em período de aposentadoria, mas pode acontecer em qualquer período de afastamento temporário ou definitivo do ambiente de trabalho, trazendo um sentimento de inutilidade e de sentir-se invisível, apresentando riscos à saúde mental e evitando que trabalhadores consigam aproveitar o tempo livre, principalmente os dias de folga.
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Relação entre profissão e identidade
Esses sentimentos podem estar relacionados ao fato de que, socialmente, construímos nossa percepção e autoestima com base em valores produtivos, ou seja, valorizamos mais os aspectos relacionados ao trabalho e consolidamos nossa identidade principalmente no reconhecimento que recebemos de colegas de trabalho e dos nossos superiores.
Por consequência, essa relação impede que o indivíduo afetado consiga aproveitar o tempo de descanso e a se reconhecer em atividades que não estejam relacionadas a trabalho. De acordo com Gregg Levoy, autor do artigo, ex-professor adjunto de jornalismo da Universidade do Novo México e ex-colunista e repórter do jornal diário USA Today, quanto mais o senso de valor próprio estiver relacionado a validação externa, mais a pessoa ficará angustiada com a possibilidade de tempo ocioso.
“Mesmo que você se identifique muito com seu trabalho, ele não define a sua identidade, assim como a ponta de um iceberg não é um iceberg”, declarou Levoy.
Dificuldade pode afetar a saúde mental do trabalhador
A tensão provocada pela dificuldade de se “desligar” do trabalho e estabelecer uma identidade para além da atividade produtiva pode ocasionar em casos de ansiedade, depressão e outras doenças relacionadas a saúde mental.
Para superar a questão, é necessário investir em outras esferas da vida, como tempo de qualidade com família e amigos para ajudar no sentimento de sentir-se acolhido e pertencente, e a prática regular de atividade física para induzir a liberação de endorfina pelo corpo, além de outras substâncias que estão diretamente relacionadas a sensação de bem-estar, prazer e vitalidade.
Tramitação na Câmara pode ser uma alternativa
Em ação alinhada a ideia de desenvolver outras esferas da vida, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho. A iniciativa ganhou força e adesão pela população e está em discussão na Câmara dos Deputados.
O presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto, participou da audiência pública da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para discutir os temas. Neto defendeu que o processo ocorra com maturidade institucional e sem alarmismo econômico.
“A cada tentativa de avanço civilizatório nas relações de trabalho, anuncia-se, com notável convicção, um cenário de colapso iminente… a véspera do ‘fim do mundo’. Com o tempo, esse recurso retórico deixa de impressionar e passa a revelar mais sobre quem o utiliza do que sobre o tema em discussão”, afirmou Neto.
Em relação a redução da jornada, a PEC 8/2025 apresentada por Hilton sugere estabelecer uma escala 4×3, com quatro dias de trabalho e três dias de descanso, sem redução salarial.
Caso aprovada, a redução da jornada pode impactar positivamente na saúde mental de trabalhadores, combatendo o esgotamento, permitindo mais tempo de qualidade para lazer e descanso e, consequentemente, incentivando a produtividade, pois um trabalhador descansado trabalha mais e melhor.
(Com informações de Psychology Today e BBC News Brasil)
(Foto: Reprodução/Freepik)







