Artigo de Lula para o The New York Times: “Este hemisfério pertence a todos nós”

Os bombardeios dos Estados Unidos em território venezuelano e a captura de seu presidente em 3 de janeiro representam mais um capítulo lamentável na contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.

Ano após ano, as grandes potências intensificam os ataques à autoridade das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser a exceção e se torna a regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas. Se as normas forem seguidas apenas seletivamente, a anomia se instala e enfraquece não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo. Sem regras acordadas coletivamente, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas.

Chefes de Estado ou de governo – de qualquer país – podem ser responsabilizados por ações que minam a democracia e os direitos fundamentais. Nenhum líder detém o monopólio do sofrimento de seu povo. Mas não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de administrar a justiça. Ações unilaterais ameaçam a estabilidade mundial, interrompem o comércio e o investimento, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem ainda mais a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais.

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É particularmente preocupante que tais práticas estejam sendo infligidas à América Latina e ao Caribe. Elas trazem violência e instabilidade a uma parte do mundo que luta pela paz por meio da igualdade soberana das nações, da rejeição do uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos. Em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, embora as forças americanas já tenham intervido na região anteriormente.

A América Latina e o Caribe abrigam mais de 660 milhões de pessoas. Temos nossos próprios interesses e sonhos a defender. Em um mundo multipolar, nenhum país deve ter suas relações exteriores questionadas por buscar a universalidade. Não nos submeteremos a esforços hegemônicos. Construir uma região próspera, pacífica e pluralista é a única doutrina que nos convém. Nossos países devem se empenhar por uma agenda regional positiva, capaz de superar as diferenças ideológicas em prol de resultados pragmáticos. Queremos atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover empregos de qualidade, gerar renda e expandir o comércio dentro da região e com nações de fora dela. A cooperação é fundamental para mobilizar os recursos de que tanto precisamos para combater a fome, a pobreza, o narcotráfico e as mudanças climáticas.

A história demonstra que o uso da força jamais nos aproximará desses objetivos. A divisão do mundo em zonas de influência e as incursões neocoloniais por recursos estratégicos são ultrapassadas e prejudiciais.

É crucial que os líderes das grandes potências compreendam que um mundo de hostilidade permanente não é viável. Por mais fortes que essas potências sejam, não podem se basear simplesmente no medo e na coerção.

O futuro da Venezuela, e de qualquer outro país, deve permanecer nas mãos de seu povo. Somente um processo político inclusivo, liderado por venezuelanos, conduzirá a um futuro democrático e sustentável. Esta é uma condição essencial para que os milhões de cidadãos venezuelanos, muitos dos quais estão temporariamente abrigados no Brasil, possam retornar em segurança para casa. O Brasil continuará trabalhando com o governo e o povo venezuelano para proteger os mais de 2.100 quilômetros de fronteira que compartilhamos e para aprofundar nossa cooperação.

É nesse espírito que meu governo tem se engajado em um diálogo construtivo com os Estados Unidos. Somos as duas democracias mais populosas do continente americano. Nós, no Brasil, estamos convencidos de que unir nossos esforços em torno de planos concretos de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho a seguir. Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.

Por Luiz Inácio Lula da Silva, em 18 de janeiro de 2026, para o The New York Times

Foto: reprodução

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