Opinião | Andras Uthoff – Protestos no Chile têm origem na privatização de serviços

“Os manifestantes veem que seus pais e avós recebem aposentadorias de miséria, 80% delas abaixo do salário mínimo e 44% da linha de pobreza. Percebem que, dessa forma, não há capacidade de sobreviver dignamente.” De acordo com Andras Uthoff, professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile e doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, o descontentamento com o sistema de previdência é uma das razões que tem levado milhares às ruas no Chile.

O país sul-americano enfrenta uma onda de protestos – que começou com críticas ao aumento na tarifa do metrô, mas que logo passou a ser alimentada pelo descontentamento quanto à qualidade dos serviços públicos (tal qual as Jornadas de Junho de 2013, no Brasil). Alguns grupos entre os manifestantes optaram por incendiar e saquear estabelecimentos comerciais – sete vítimas fatais foram contabilizadas até agora. O presidente Sebastián Piñera, sob a justificativa de reduzir os casos de quebra-quebra, suspendeu o aumento e inundou as ruas com militares – fato que não ocorria desde o fim da ditadura militar.

“É uma manifestação contra o abuso que tem significado a privatização de serviços públicos com cobranças que a grande maioria não pode pagar, ficando excluída de bons serviços de saúde, educação, transporte, moradia, água, luz, energia”, explica Andras, que foi membro de dois conselhos presidenciais para reformas no sistema previdenciário chileno e chefe da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), em entrevista ao blog.

O exemplo chileno foi usado recorrentemente pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, como inspiração para nossa a Reforma da Previdência. Durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), foi adotado, por lá, o sistema de capitalização (em que cada trabalhador faz individualmente uma poupança), diferente de nosso sistema de repartição (no qual os que estão na ativa ajudam a pagar quem está aposentado). Andras afirma que “depois de 40 anos, percebemos que o sistema de capitalização individual empobreceu os idosos no Chile”.

Polêmica, a proposta acabou retirada do processo pelo Congresso Nacional. Mas a ideia segue viva na pauta do governo Bolsonaro, sendo defendida sempre que possível.

O professor da Faculdade de Economia diz ainda que há uma relação entre as reclamações de manifestantes por serviços públicos de qualidade e os problemas no sistema de aposentadorias. Para financiar o custo da transição para o sistema de capitalização foram cortados gastos em saúde, educação, moradia. “A qualidade dos serviços públicos se deteriorou e nunca recuperou níveis de dignidade, como prometido”, afirma. Se alguém quer boa educação e saúde, tem que pagar por esses serviços. Vale ressaltar que a redução de gastos nessa área só foi possível porque o Chile vivia sob uma ditadura.

O que deve acontecer agora? “Está pendente a identificação de uma liderança firme, que nos permita canalizar esse descontentamento a fim de corrigir os abusos do modelo neoliberal que prevaleceu no Chile, sem sucesso para a grande maioria e benefício de apenas uns poucos.” E resume: “A desigualdade é a ameaça”.

Fonte: Blog do Sakamoto

Compartilhe:

Leia mais
reunião centrais rs e oit
Centrais e OIT discutem impacto das enchentes no mercado de trabalho do RS
plano erradicação trabalho escravo será atualizado
Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo será atualizado após 16 anos
podcast fetrarod
Fetrarod lança podcast para discutir temas de interesse dos rodoviários; assista aqui
Manifesto contra PL do estupro
Mulheres sindicalistas divulgam manifesto contra PL do Estupro (PL 1904/24)
Nota das centrais selic
Centrais pedem redução dos juros: "por desenvolvimento com justiça social"
lula critica campos neto
Lula diz que Campos Neto tem lado político e trabalha para prejudicar o país
campos neto presidente bc
Procurador pede investigação sobre influência de bancos na definição dos juros pelo BC
Encontro CSB China
CSB promove encontros com entidades sindicais chinesas em SP e RJ; inscreva-se
CSB-RS conselho plano rio grande
Reconstrução do RS: CSB toma posse como membro do Conselho do Plano Rio Grande
distribuição extra fgts
Após acordo com centrais, governo fará distribuição extra do FGTS aos trabalhadores