O avanço da inteligência artificial no mercado de trabalho, somado ao aumento das demissões, especialmente no setor de tecnologia, tem provocado mudanças no comportamento de profissionais. Em meio à insegurança, muitos trabalhadores passaram a intensificar a rotina, com mais horas extras, menos pausas e maior preocupação em demonstrar produtividade.
Levantamento realizado com mais de 3 mil profissionais indica que empregados têm acrescentado, em média, 2 horas e 24 minutos à jornada semanal. Ao longo de um ano, isso representa cerca de 125 horas adicionais de trabalho. A prática vem acompanhada de outras estratégias, como encurtar o intervalo de almoço e manter-se constantemente disponível.
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Esse movimento também inclui o chamado “teatro da produtividade”, caracterizado por atitudes voltadas a aparentar ocupação constante. Entre os comportamentos relatados estão responder mensagens imediatamente, manter o status online ativo e prolongar tarefas simples. Segundo a pesquisa, 67% dos trabalhadores afirmam adotar esse tipo de postura.
Esforço nem sempre traz os resultados esperados
Especialistas, no entanto, avaliam que aumento da carga de trabalho, por si só, não garante maior segurança profissional e pode, inclusive, gerar efeito contrário. A análise é que o mercado passa por mudanças estruturais, nas quais o foco deixa de ser a quantidade de horas trabalhadas e passa a recair sobre a forma e o propósito do trabalho.
Outro ponto observado é a redução do tempo de descanso. Mais da metade dos entrevistados relatou diminuição no intervalo de almoço no último ano, frequentemente associada à necessidade de manter produtividade e visibilidade. Nesse cenário, pausas passam a ser vistas como risco, diante de expectativas cada vez mais influenciadas pela eficiência tecnológica.
A incorporação da inteligência artificial também altera a forma como o desempenho é avaliado. Parte dos trabalhadores percebe mudanças nos critérios, incluindo maior exigência por velocidade nas entregas. Quando tarefas são automatizadas, cresce a cobrança para que o ritmo humano acompanhe o da tecnologia.
Apesar de a IA reduzir atividades repetitivas, especialistas apontam que ela não elimina funções inteiras de forma imediata, mas transforma tarefas específicas. Isso exige adaptação constante e reforça a importância de habilidades como análise, tomada de decisão e criatividade.
Nesse novo contexto, critérios tradicionais como presença contínua e horas extras tendem a perder espaço. Ganham relevância fatores como qualidade das entregas, impacto do trabalho e capacidade de tornar a tecnologia uma aliada.
Receio de substituição segue presente
Parte significativa dos profissionais teme perder espaço diretamente para a inteligência artificial ou ser pressionada por metas mais exigentes. Há também preocupação em relação à defasagem frente a colegas mais familiarizados com as novas ferramentas.
Diante desse cenário, especialistas destacam a necessidade de adaptação estratégica. O desenvolvimento de novas habilidades alinhadas ao uso da tecnologia é apontado como caminho mais eficaz do que o aumento indiscriminado da carga de trabalho. Além disso, compreender o funcionamento básico das ferramentas e identificar tarefas que podem ser automatizadas já representa um diferencial importante.
A transição, contudo, não ocorre sem impactos emocionais. A pressão por produtividade, aliada à falta de ajustes claros nas expectativas, pode intensificar a sensação de sobrecarga e insegurança. Nesse contexto, o desafio não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como ela é implementada no ambiente corporativo.
(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Freepik)







