Um levantamento inédito aponta que a maior parte dos empresários identificados como apoiadores da ditadura militar brasileira tem origem em famílias escravistas. A investigação, baseada em dados da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e aprofundada por meio de pesquisa genealógica, indica que pelo menos dois em cada três nomes analisados descendem de antigos senhores de escravos.
O estudo foi desenvolvido no contexto do podcast Perdas e Danos, para um episódio que compõem a segunda temporada e que examina as relações entre o setor empresarial e o regime militar. A partir da reconstrução de árvores genealógicas, pesquisadores conseguiram identificar a origem familiar de 62 empresários citados pela CNV, dos quais ao menos 40 possuem vínculos diretos com a escravidão no Brasil.
Segundo especialistas, esse dado evidencia a permanência histórica de uma elite econômica que atravessa diferentes períodos políticos do país. A análise sugere que estruturas de poder formadas ainda no período colonial continuaram influentes ao longo do século XX, inclusive durante a ditadura.
“Observamos que a classe dominante tradicional no Brasil tem um núcleo duro desde o período colonial em todas as regiões (…) Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões”, afirma o coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses, referência em pesquisa genealógica, Ricardo Oliveira.
Repressão aos trabalhadores e movimentos sindicais
Para estudiosos, o modelo econômico adotado pelo regime militar manteve características associadas à exploração intensiva de recursos e de mão de obra. A lógica da “extração”, descrita por pesquisadores, não se limitava à natureza, mas também atingia diretamente os trabalhadores, por meio da precarização das condições de trabalho e da repressão aos movimentos sindicais.
Logo após o golpe de 1964, milhares de trabalhadores organizados foram presos, evidenciando a articulação entre empresas e o aparato repressivo do Estado. Ao mesmo tempo, políticas econômicas contribuíram para a perda do poder de compra do salário mínimo e para o aumento da concentração de renda.
Esse cenário reforçou um quadro de desigualdade persistente. Dados indicam que a fatia da renda concentrada entre os mais ricos cresceu significativamente durante o período, enquanto a mobilidade social permaneceu limitada. No Brasil, estima-se que sejam necessárias várias gerações para que uma pessoa nascida em condições de pobreza alcance a classe média.
A investigação também detalha o caso da família Bueno Vidigal, escolhida como exemplo por sua influência econômica e política durante a ditadura. Com atuação nos setores industrial e financeiro, o grupo esteve ligado tanto ao financiamento de estruturas repressivas quanto à obtenção de benefícios econômicos concedidos pelo regime.
Registros históricos apontam ainda que empresas do grupo mantinham condições de trabalho precárias, o que contribuiu para conflitos trabalhistas marcantes, como a greve de Osasco, em 1968. A paralisação foi duramente reprimida e acabou se tornando um dos marcos da intensificação do regime autoritário.
Além disso, há indícios de participação empresarial no financiamento de órgãos de repressão, incluindo mecanismos de incentivo à captura de opositores políticos. Em troca, empresas recebiam incentivos fiscais, acesso facilitado a crédito público e contratos governamentais.
Cenário reflete no imaginário coletivo
A pesquisa também resgata documentos do século XIX que comprovam a ligação dessas famílias com a escravidão, reforçando a tese de continuidade histórica das elites econômicas brasileiras. Para analistas, a permanência desses grupos no topo da estrutura social ajuda a explicar a desigualdade e a baixa mobilidade social no país.
De acordo com José Marciano Monteiro, professor da Universidade Federal de Campina Grande (PB), a presença de nomes dessas famílias em espaços públicos, como ruas e instituições, reflete disputas de memória que também influenciam a manutenção de privilégios e narrativas históricas.
“As disputas políticas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências”, conclui Monteiro.
(Com informações de Agência Brasil)
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