Os impactos dos assédios no ambiente de trabalho e seus reflexos na saúde mental de servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada foram tema de um seminário realizado nesta sexta-feira (24). Promovido pela Federação dos Servidores Públicos do Rio Grande do Sul (Fessergs), em parceria com sindicatos de servidores públicos e a Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), a atividade contou com o apoio de diversas entidades sindicais, além da presença do presidente e do vice-presidente da CSB-RS, Sérgio Arnoud e Antônio Roma, a presidente da Federação dos Municipários do Rio Grande do Sul (Femergs), Clarice Inês Mainardi, e do secretário de mobilização da central, Paulo de Oliveira.
O encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir formas de prevenção, conscientização e enfrentamento de práticas que comprometem o bem-estar dos profissionais e a qualidade dos serviços prestados à sociedade.
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Assédios e saúde mental no trabalho
O debate destacou que situações de assédio no ambiente de trabalho podem provocar graves consequências para a saúde dos trabalhadores. Entre os principais efeitos estão o adoecimento psicológico, como quadros de depressão, ansiedade e burnout em casos de estresse crônico.
Além dos danos individuais, o problema também afeta o funcionamento das instituições, comprometendo a qualidade dos serviços oferecidos à população. Segundo a Fessergs, a realização do seminário surgiu diante da recorrência de denúncias recebidas pela federação relacionadas ao ambiente de trabalho de servidores públicos.
A proposta foi ampliar a discussão sobre o tema, reunir especialistas e fortalecer a conscientização sobre a necessidade de prevenção e combate às diferentes formas de assédio.
Especialistas discutiram prevenção e enfrentamento
A programação reuniu profissionais com atuação nas áreas do Direito do Trabalho, da Justiça do Trabalho, da saúde e da representação sindical.
Durante o evento, a especialista em Direito Sindical e assessora do Sinditamaraty, Eliane Cesário, destacou que o assédio no ambiente de trabalho não pode ser tratado apenas como uma questão individual. Para ela, trata-se também de um problema estrutural que afeta a saúde mental dos trabalhadores e prejudica o desempenho dos serviços públicos.
“O assédio no ambiente de trabalho por muitos anos foi tratado como apenas um problema individual e não como parte também, de um modelo estrutural que compromete a saúde mental e o desempenho do serviço público. As entidades sindicais são essenciais para identificar, denunciar e, principalmente, proteger a classe trabalhadora pública no enfrentamento, na prevenção de práticas abusivas e na promoção da saúde e segurança no trabalho”, afirmou.
Contradições no combate ao assédio
A diretora do Foro de Gramado do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4), Angie Miron, abordou as contradições existentes entre a legislação e a realidade vivida pelos servidores públicos. Segundo ela, embora o Estado estabeleça normas para combater o assédio e proteger a saúde no trabalho, ainda mantém estruturas que favorecem práticas abusivas dentro da administração pública.
“O Estado brasileiro legisla proibindo o assédio, mas assedia. Regulamenta a saúde no trabalho, mas adoece os seus próprios servidores. Ratifica convenções internacionais contra a violência laboral, mas perpetua estruturas hierárquicas que a alimentam todos os dias. É desta contradição — que conheço tanto pela pesquisa acadêmica quanto pela vivência de dentro da própria máquina pública — que baseio minha abordagem”, declarou.
Para o médico psiquiatra Ricardo Nogueira, a saúde mental deve ganhar mais espaço na gestão dos ambientes de trabalho, exigindo atenção permanente de empregadores, gestores e entidades representativas.
“A atualização mais importante da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio de 2026, é a obrigatoriedade de incluir os riscos psicossociais e a saúde mental no gerenciamento estratégico das empresas. Isso é reflexo do adoecimento que trabalhadores públicos e privados vêm enfrentando pós pandemia. A situação é grave e merece extrema a atenção.”
Saúde mental ganha espaço na gestão dos ambientes de trabalho
Além das palestras, o seminário evidenciou a importância de ampliar o debate sobre saúde mental no trabalho e fortalecer mecanismos de prevenção ao assédio, incluindo o assédio eleitoral, tema muitas vezes esquecido em palestras sobre saúde mental de trabalhadores.
De acordo com a especialista em Direito do Trabalho, Cristina Gerhardt Benedetti, o assédio eleitoral no ambiente de trabalho ocorre durante a jornada de trabalho ou em situações ligadas à atividade profissional.
“Quando há “coação, intimidação, ameaça ou constrangimento relacionados ao processo eleitoral, com potencial para influenciar o voto, o posicionamento político ou o apoio de trabalhadores”, esclareceu.
O seminário reforçou a importância de transformar o combate ao assédio e a promoção da saúde mental em pautas permanentes.







