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Opinião: Chance de fim da 6×1 tirou do armário quem despreza trabalhador pobre

Há momentos em que uma discussão política funciona como luz acesa num quarto escuro, revelando onde alguns bichos estavam o tempo todo. O debate em torno do fim da escala 6×1 (apoiado por 71% da população brasileira, segundo o Datafolha) vem sendo exatamente isso. Uma lanterna apontada para o chão de uma sociedade que nunca resolveu sua relação com o trabalhador pobre, mas que, por anos, manteve esse desprezo em tom mais discreto, quase civilizado.

Quando o projeto começou a ganhar tração, o contra-ataque não veio só com argumentos econômicos ou jurídicos, mas também com veneno destilado, com a soberba de quem nunca precisou acordar às quatro da manhã para pegar três conduções até o trabalho, com a crueldade de quem confunde descanso com vadiagem e direito com privilégio. O que emergiu desse debate não foi uma novidade: foi a superfície de um preconceito de classe enraizado e antigo que, diante da ameaça de perder mão de obra barata e exausta, perdeu o pudor de se mostrar.

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Engana-se quem acha que esses sentimentos surgiram do nada por conta do atual governo. Diante disso, há quem diga que o Brasil de hoje está criando “ódio entre classes”, quando ele sempre esteve ali, no comentário do jantar de família, na reclamação do patrão que “não acha ninguém que queira trabalhar” pela mixaria que ele quer pagar, na cara feia para o empregado que ousou tirar férias.

O que mudou é que o contra-ataque de parte do setor empresarial e da extrema-direita ao projeto do fim da 6×1 deu a esses preconceitos uma plataforma, uma legitimidade e uma temperatura. Saíram do armário vestidos de argumento econômico, de preocupação com a nação, de moralidade religiosa. Mas continuaram sendo o que sempre foram: desprezo pela situação do trabalhador pobre.

Exemplos dos últimos meses, desde que o debate ganhou as ruas, são didáticos.

O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) defendeu, no Dia do Trabalhador, flexibilizar as leis para permitir que crianças trabalhem. E prometeu: nós vamos mudar isso aí, indo na contramão de um dos maiores esforços globais, capitaneado pelas Nações Unidas: a eliminação desse tipo de exploração. Hoje, são 138 milhões em trabalho infantil.

Zema copia, como estratégia eleitoral, declarações do então presidente Jair Bolsonaro, que defendia ver os filhos suando no batente. Dos outros, no caso. Até por que não se teve notícia de que sua filha caçula trabalhasse durante sua gestão para ajudar a sustentar o Palácio do Alvorada.

Muitos dizem que trabalharam quando criança e usam a experiência como exemplo. Vale, contudo, lembrar que exploração não precisa ser hereditária. Além disso, enquanto crianças mais ricas acompanham os pais nos negócios da família, as mais pobres vão ao semáforo, à casa de farinha, à faxina na casa dos outros. Discursos que apontam o trabalho desde cedo como forma de moldar caráter e tirar do crime são comuns no país, com o trabalho infantil sendo ministrado como remédio à pobreza. Por isso, recebem aplausos do andar de cima.

Um vídeo que circula nas redes mostrou uma trabalhadora doméstica sendo chamada de preguiçosa e vagabunda por seu patrão ao pedir folga no Dia dos Trabalhadores. Pelo vídeo, ela acabou pedindo demissão. O patrão, ao que tudo indica, nem rico era, mas reproduzia os argumentos que deve ter lido a vida inteira na Universidade do WhatsApp.

Ressalte-se o óbvio: o Primeiro de Maio não é o dia em que trabalhadores comemoram o trabalho, mas em que a história registra uma luta (frequentemente regada com seu sangue e sua morte) por direitos que muitos hoje consideram garantidos e naturais. Pedir folga nesse dia não é ironia, é coerência histórica.

Em uma rodovia entre Holambra e Jaguariúna, no interior de São Paulo, um outdoor resumiu em poucas palavras uma das mais persistentes mentiras que circulam sobre os trabalhadores pobres no Brasil: “Deixe de ser escravo (da sua bolsa família). Procure uma atividade remunerada.”

A mensagem é econômica na forma e devastadora no conteúdo. Parte de uma premissa falsa (a de que beneficiários do Bolsa Família são pessoas que escolheram a ociosidade) para construir um argumento que culpa a vítima e absolve o sistema. A esmagadora maioria dos beneficiários do programa trabalha, sim. Trabalha informalmente, trabalha com remuneração insuficiente, trabalha em condições que não garantem saída da miséria sem um complemento.

O que o outdoor não diz é que mais de 2.069.776 famílias haviam deixado o benefício de janeiro a outubro do ano passado porque conseguiram renda própria. Melhores condições de emprego e remuneração digna é que atraem trabalhadores. Não o aumento da vulnerabilidade causado pelo desmanche de programas sociais. Mas essa é uma conversa que o dono do outdoor claramente não quer ter, bem como aqueles que acham que pobre não gosta de trabalhar.

O deputado federal Marcos Pereira, presidente do partido Republicanos, deu uma entrevista à Folha de S.Paulo que, se não fosse real, pareceria sátira. Preocupado com o que chamou de competitividade do setor produtivo, o parlamentar desfiou uma série de afirmações sobre trabalhadores que revelam com precisão cirúrgica como parte da elite política pensa sobre quem vive do salário mínimo.

“Ócio demais faz mal”, disse. Gente que parou de trabalhar “morreu rápido, ficou doente”. Com o dia extra de descanso, o trabalhador “vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”. E então sintetizou: “Qual o lazer de um pobre numa comunidade?” Ou ainda: “Num sertão lá do Nordeste?”

Leia novamente. Um deputado federal, eleito para representar o povo brasileiro, questionando publicamente para que serviria o tempo livre de um trabalhador pobre do Nordeste — com o subtexto de que, sem trabalho, ele inevitavelmente vai se degradar. Não é preocupação. É paternalismo com roupagem de argumento econômico. É a crença, explicitada sem pudor, de que o trabalhador pobre não tem direito ao descanso porque não sabe o que fazer com ele.

Se o caso do deputado revela o preconceito da elite política, o caso da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, revela algo ainda mais perturbador: o uso distorcido da linguagem da luta pelos direitos para proteger os privilégios de alguns.

A magistrada afirmou que o fim dos chamados “penduricalhos” (os adicionais que compõem os supersalários de servidores públicos e que vêm sendo enfrentados em um esforço puxado pelo ministro Flávio Dino, do STF) levaria juízes a um “regime de escravidão”. Segundo o jornalista Fausto Macedo, do jornal O Estado de S. Paulo, ela recebeu R$ 91 mil líquidos em um único mês.

Noventa e um mil reais líquidos. Em um mês.

A palavra escravidão, usada por alguém nessa condição financeira, não é apenas inapropriada, mas uma agressão. O Pará, estado onde ela serve, é o que tem o maior número de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão no acumulado desde 1995, quando o governo federal criou o sistema de fiscalização e combate ao trabalho escravo. Participei presencialmente de um rosário de operações de resgates, acompanhando o poder público, nas últimas duas décadas por lá e o que vi eram pessoas que trabalhavam na jornada 7×0, sem comida decente, em alojamentos podres, apanhando e sendo ameaçadas de morte se parassem de roçar juquira, fazer cerca e produzir carvão.

Usar a palavra escravidão para descrever a possibilidade de redução salarial para valores que ainda estariam entre os maiores do país não é um erro de linguagem, mas uma demonstração de quão distante certos grupos estão da realidade dos que trabalham de verdade. E de quão naturalmente esse distanciamento se traduz em desprezo.

E, com tudo isso, há o front digital. Nas redes sociais (especialmente no TikTok e no Instagram) proliferaram vídeos de influenciadores com uma mensagem em comum: quem quer descansar dois dias por semana é vagabundo, CLT é coisa de fracassado e direitos trabalhistas corroem a dignidade do trabalhador. Outros foram mais longe, cavalgando distorções teológicas para afirmar que o fim da 6×1 é coisa do diabo e que apenas através do trabalho ininterrupto Deus demonstra que aprecia o fiel.

É a sacralização da exploração. A transformação do esgotamento em virtude, do descanso em pecado e da luta por direitos em subversão moral. Quando esse pacote é convocado para justificar que o trabalhador deve se contentar com seis dias de trabalho para um de descanso (a mesma proporção do Antigo Testamento, mas sem o amor ao próximo do Novo Testamento), estamos diante de um projeto de domesticação social.

O Datafolha aponta que 71% apoiam o fim da escala 6×1 sem redução de salário. Não são todos sindicalistas, não são todos de esquerda, não são todos pobres. Mas são pessoas que trabalham, que conhecem o cansaço, que entendem o que significa não ter tempo para a família, para a saúde, para si mesmas. A maioria silenciosa que, quando ouvida, diz que quer mais vida fora do trabalho e menos burnout.

O debate em torno desse desejo legítimo trouxe à superfície algo que o Brasil prefere não encarar diretamente: que há uma parcela da sociedade (empresários, políticos, influenciadores, magistrados, isso sem contar os Guerreiros do Capital Alheio) que vê o trabalhador pobre como um recurso a ser administrado, não como um ser humano com direitos a serem respeitados.

Que o descanso deles é ameaça, mas o supersalário do funcionalismo e os lucros trazidos pelo rentismo são sagrados. Que o beneficiário de programa social é preguiçoso por definição, mas o empresário que se beneficiou da herança, essa maravilhosa meritocracia passada de pai para filho, é empreendedor por natureza.

Esses sentimentos sempre existiram. A Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do trabalho escravo formal no Brasil, mas não veio com ações reais de integração daquela massa liberta à cidadania, nem de mudança simbólica do sentido do trabalho. Mais de três séculos de escravidão forjaram a forma como o país trata quem pouco têm. O que temos visto nos últimos tempos é exemplo disso.

O que o debate sobre o fim da 6×1 fez foi dar a tudo isso uma ocasião para sair do armário e mostrar, mais uma vez, que a luta por direitos trabalhistas no Brasil nunca foi apenas uma disputa jurídica ou econômica. É, antes de tudo, uma disputa sobre quem merece ser tratado como gente.

Por Leonardo Sakamoto, colunista do UOL

(Com informações de UOL)

(Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

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