Um manifesto pedindo a reabertura das investigações sobre as circuntâncias que levaram à morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek foi enviado ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à ministra da Cidadania e dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo dos Santos, e à presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Augusta Gonzaga.
O presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto, assinou o documento elaborado por Gilberto Natalini, Adriano Diogo e Robson Sávio Reis Souza, que argumentaram que novas evidências surgiram com o passar dos anos que levam a crer que a morte de JK pode ter sido provocada pelo regime militar, em vez de ter sido meramente acidental.
Confira o manifesto:
PELA REABERTURA DO CASO JK
O ano de 2026 marcará os 50 anos do desaparecimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek. As circunstâncias de sua morte continuam obscuras. Na época, em pleno regime militar, tentaram culpar o motorista de um ônibus, acusando-o de conduzir o veículo que colidiu com o automóvel que levava JK, provocando em seguida uma outra batida e o sinistro fatal.
Julgado e processado duas vezes, o motorista do ônibus foi absolvido em ambos os processos. Não teria havido o abalroamento entre aquele ônibus e o carro do ex-presidente, apesar de, até hoje, essa ser a explicação a justificar a causa do “acidente”.
Ao longo do tempo, porém, indícios passaram a apontar para um hotel em Resende, município do Rio de Janeiro, de onde JK partira na direção da cidade do Rio de Janeiro, poucos minutos antes de perder a vida. O automóvel que o transportava rodou apenas três quilômetros na Via Dutra. Já estava desgovernado quando atravessou o canteiro central, projetou-se na pista da contramão e bateu em velocidade contra um caminhão que vinha em sentido contrário.
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Juscelino Kubitschek, de 74 anos, e seu motorista de confiança, Geraldo Ribeiro, de 66 anos, o mesmo que o servira por 36 anos, teriam morrido na hora, após o forte impacto.
Perseguido pela ditadura militar, cassado e humilhado, JK recuperara os direitos políticos fazia pouco tempo. Em 1976, dois anos antes da eleição do sucessor do general-presidente Ernesto Geisel, movimentava-se para chegar novamente ao Palácio do Planalto. Se fosse o eleito, o regime militar teria persistido por 15 anos, e não os 21 anos nos quais, afinal, impôs um estado de exceção ao povo brasileiro.
O hotel em Resende costumava receber militares em suas dependências. Era de propriedade de um militar de alta patente. Tudo indica que JK foi atraído até o local, onde faria uma reunião sigilosa com chefes militares. Para voltar à Presidência da República, ele julgava precisar de apoio nas Forças Armadas. As evidências são de que caiu numa cilada.
Provavelmente emboscados na Dutra, JK e seu motorista arriscariam uma fuga em alta velocidade. Mas há suspeitas de que o Opala conduzido por Geraldo Ribeiro teria sido sabotado no estacionamento do hotel. Alguns segundos antes do choque trágico contra o caminhão, já na pista da contramão, uma manobra evasiva poderia ter direcionado o carro para o acostamento. Nesta hipótese, o resultado fatal não ocorreria. Porém, sem lógica, com suspeita de que o freio do Opala não foi sequer acionado, o carro do ex-presidente percorreu uma trajetória na contramão, em rota tresloucada, até o impacto final.
Só recentemente, em 2019, uma nova perícia técnica jogou luz no “acidente” que vitimou JK e seu motorista. Mais uma vez, ficou demonstrado que não houve a colisão anterior com o ônibus e, portanto, restou a hipótese da irracionalidade de o automóvel com o ex-presidente se deslocar pela contramão da Dutra, em vez de simplesmente atravessá-la até o acostamento, evitando o choque contra o caminhão.
Pairam incertezas fundamentadas acerca dos acontecimentos que levaram à morte de JK. A sociedade brasileira não pode continuar convivendo com dúvidas sobre a causa da morte violenta de um ex-presidente da República, político popular cassado arbitrariamente pela ditadura.
Nós, abaixo-assinados, vimos, por meio deste manifesto, solicitar ao Governo do Brasil, por intermédio da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instalada no âmbito do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a reabertura do caso JK. Temos a convicção de que o “acidente” de 22 de agosto de 1976 precisa ser novamente reexaminado. Em nome da verdade e da história do Brasil, as mortes do ex-presidente Juscelino Kubitschek e do motorista Geraldo Ribeiro devem ser consideradas um caso em aberto, cuja conjuntura não foi cabalmente esclarecida.
São Paulo, 27 de março de 2025
Gilberto Natalini – Presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir
Herzog (2013 – 2014)
Adriano Diogo – Presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo
(2013 – 2014)
Robson Sávio Reis Souza – Coordenador da Comissão da Verdade em Minas
Gerais (2016 – 2018)
Assinam:
Airton Soares
Alex Solnik
Alexandre Kalache
Amelinha Teles
Ana Cristina Pires Duarte
Antonio Funari Filho
Antonio Neto
Augusto de Franco
Beatriz Cintra Labaki
Belisário dos Santos Júnior
Camila Santos Tolosa Bianchi
Camilo Tavares
César Augusto Loureiro
Criméia Alice Schimidt de Almeida
Cynthia Louzada Garcia
Débora Garcia Restom
Eduardo Jorge
Ernesto Tzirulnik
Fábio Luís Chateaubriand
Fernando Guida
Fernando Mattos
Flávio Tavares
Florisval Meinão
Gilberto Bercovici
Gonzalo Vecina Neto
Gustavo Conde
Ítalo Cardoso
Ivo Patarra
Janaína de Almeida Teles
Joan Gael Nobre
João Carlos Gonçalves (Juruna)
João Paulo Cuenca
José Luís Goldfarb
José Luiz Quadros de Magalhães
Lea Vidigal
Leda Maria Caira Gitahy
Lívio Giosa
Luiz Eduardo Greenhalgh
Marcelo Ridenti
Marcelo Rubens Paiva
Marco Antonio Villa
Maria Aparecida Trazzi Vernucci da Silva
Maria Claudia Sant’Anna
Maria Helena Arrochellas
Maria Helena Lorena Pimentel
Maria José Vieira Dantas
Maria Lúcia Bicudo
Mário Covas Neto
Mario Fernando Gadelha Braga
Myrian Labaki Pupo
Nádia Battella Gotlib
Padre Luís de Souza
Pádua Fernandes
Paulo Sérgio Duarte
Paulo Vannuchi
Pérsio Dutra
Raquel Henkin
Renan Quinalha
Ricardo Montoro
Roberto Delmanto
Roberto Tardelli
Rodrigo Arreyes
Rosa Freire D’Aguiar
Serafim Jardim
Sérgio Gomes
Silvestre Gorgulho
Silvio Tendler
Soninha Francine
Valdirene Atique
Wagner William
Walter Feldman