Centrais sindicais, trabalhadores e entidades de direitos humanos reuniram-se na noite desta segunda-feira (19), em São Paulo, para homenagear o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, preso e assassinado em 27 de janeiro de 1976 nas dependências do DOI-Codi do II Exército durante a ditadura militar. O ato que marcou os 50 anos de sua morte ocorreu na antiga sede do Sindicato dos Metalúrgicos e atual sede do Sindicato dos Aposentados, espaço considerado simbólico para a história do movimento operário brasileiro.
O presidente da CSB, Antonio Neto, esteve presente e discursou na homenagem (leia a íntegra no final da matéria). Ele definiu a lembrança de Manoel Fiel Filho como um gesto político e não apenas simbólico. “Lembrar Manoel Fiel Filho não é um gesto protocolar”, disse, acrescentando que se trata de “a decisão consciente de não permitir que o esquecimento vença a verdade”.
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Antonio Neto também enfatizou o caráter atual da disputa pela memória histórica. “Por isso, estar aqui hoje, cinquenta anos depois, é afirmar que eles não venceram. Mas é também um alerta. Porque memória não é passado. Memória é presente. Memória é disputa permanente”, disse, relacionando o legado da ditadura aos desafios democráticos contemporâneos.

Neto ainda destacou a trajetória do homenageado, lembrando que Manoel Fiel Filho era “um homem simples, como milhões de brasileiros que constroem este país com o próprio suor”, e reiterou que nada em sua vida justificava a violência que sofreu sob custódia do Estado.
Além do presidente, a CSB foi representada por Álvaro Egea, secretário-geral da central, que participou da organização do ato em articulação com outras centrais sindicais e entidades envolvidas na iniciativa.
Programação do ato
A homenagem incluiu o lançamento do livro “Carrascos da Ditadura”, de autoria do jornalista Jorge Oliveira, que também dirigiu o documentário “Perdão, Mister Fiel!”, exibido ao final do evento. O livro reconstrói a trajetória de Manoel Fiel Filho, aponta responsáveis por sua prisão, tortura e morte e analisa o funcionamento da repressão política no Brasil e no Cone Sul.

Durante a cerimônia, também foi entregue a Medalha Manoel Fiel Filho, concedida a sindicalistas e militantes da luta operária em reconhecimento à resistência democrática e à defesa dos direitos dos trabalhadores durante o regime autoritário.
O evento teve transmissão ao vivo pelos sites da Fundação Astrojildo Pereira (FAP) e da Tutaméia (assista aqui). A iniciativa foi organizada pela FAP com apoio de centrais sindicais e entidades de direitos humanos, com o objetivo de reafirmar compromissos com memória, verdade, justiça e democracia e homenagear a trajetória de um trabalhador cuja morte se tornou símbolo das violações cometidas pelo Estado brasileiro durante a ditadura.
Quem foi Manoel Fiel Filho
Alagoano de Quebrangulo, Manoel Fiel Filho vivia em São Paulo desde os anos 1950. Trabalhou como padeiro e cobrador de ônibus antes de ingressar na indústria metalúrgica, onde atuava como prensista na empresa Metal Arte, no bairro da Mooca.
Em janeiro de 1976, foi preso por agentes do DOI-Codi dentro da própria fábrica, acusado de ter ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia seguinte, órgãos de segurança divulgaram nota oficial afirmando que ele teria se enforcado na cela com as próprias meias – versão contestada por familiares e testemunhas, que relataram que ele usava chinelos sem meias no momento da prisão.
Na noite de 17 de janeiro de 1976, um veículo do Exército parou em frente à sua casa e entregou à esposa, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um saco plástico com suas roupas, informando que ele havia “se suicidado”. Quando o corpo foi liberado para o sepultamento, familiares observaram sinais de tortura na testa, nos pulsos e no pescoço, embora o laudo oficial tenha mantido a versão do suicídio.
Posteriormente, em ação judicial movida pela família, a União foi responsabilizada pela tortura e assassinato de Manoel Fiel Filho. Documentos encontrados nos arquivos do antigo DOPS indicaram que sua principal “acusação” teria sido receber o jornal Voz Operária. Depoimentos colhidos anos depois por jornalistas também apontaram que ele foi morto durante um interrogatório no DOI-Codi.
Impacto político da morte
A morte de Manoel Fiel Filho ocorreu em um contexto de tensão dentro do regime militar. Três dias após o episódio, o comandante do II Exército, general Ednardo d’Ávila Melo, foi afastado do cargo – movimento interpretado por analistas como tentativa do governo Geisel de conter o desgaste político provocado pela repercussão do caso.
Embora não tenha gerado comoção pública equivalente à morte de Vladimir Herzog, em 1975, o episódio de Fiel Filho expôs a rotina de torturas nos órgãos de repressão e aprofundou fissuras entre a chamada “linha dura” militar e setores do governo que defendiam uma abertura política gradual.

Leia a íntegra do discurso de Antonio Neto:
Companheiras e companheiros,
amigas e amigos,
Profundamente honrado em falar em nome das centrais sindicais aqui presentes: CSB, CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central, CSP-Conlutas, Pública e Intersindical.
Hoje não é um dia qualquer.
Hoje não estamos reunidos apenas para lembrar um nome.
Estamos aqui para afirmar uma memória — e, com ela, um compromisso histórico.
Lembrar Manoel Fiel Filho não é um gesto protocolar.
Não é um rito qualquer.
É um ato político no sentido mais profundo da palavra:
a decisão consciente de não permitir que o esquecimento vença a verdade.
Recentemente, ao falar sobre o filme O agente secreto, na cerimônia do Globo de Ouro,
Wagner Moura disse algo que dialoga diretamente com este momento.
Ele afirmou que o filme é, acima de tudo, sobre memória —
ou sobre a falta dela.
Sobre trauma geracional.
E sobre como sociedades que não elaboram seus traumas
ficam condenadas a repeti-los.
Mas ele disse algo ainda mais importante:
se o trauma pode ser transmitido de geração em geração,
os valores também podem.
E precisam ser.
É exatamente disso que estamos falando hoje.
Manoel Fiel Filho era um trabalhador.
Metalúrgico. Pai de família. Um homem simples, como milhões de brasileiros que constroem este país com o próprio suor.
Nasceu em 1927, em Quebrangulo, no interior de Alagoas,
e veio para São Paulo em busca de trabalho, dignidade e futuro.
Foi padeiro.
Foi cobrador de ônibus.
E, por quase vinte anos, operário metalúrgico na Mooca —
um território histórico da classe trabalhadora paulista.
Nada, absolutamente nada, em sua trajetória justificaria a violência que sofreu.
Mas há 50 anos, em janeiro de 1976,
Manoel Fiel Filho foi preso no local de trabalho
e levado ao DOI-Codi do II Exército.
No dia seguinte, estava morto.
A ditadura tentou mentir.
Disse que foi suicídio.
Disse que ele teria se enforcado com as próprias meias.
Mas a mentira não se sustentou.
Ele foi preso de chinelo.
Não tinha meias.
E seu corpo carregava marcas evidentes de tortura.
Hoje, o próprio Estado brasileiro reconhece:
Manoel Fiel Filho foi torturado e assassinado sob custódia do Estado.
É duro dizer isso.
Mas é necessário dizer.
Porque a ditadura não foi algo abstrato ou que é possível relativizar.
Ela teve vítimas de carne e osso.
Teve trabalhadores.
Teve famílias destruídas.
E é fundamental lembrar:
a ditadura perseguiu o mundo do trabalho.
Perseguiu sindicatos.
Perseguiu lideranças operárias.
Perseguiu trabalhadores que ousavam se organizar, pensar, se informar.
Manoel Fiel Filho ajudava a difundir o jornal Voz Operária.
E isso bastou para que fosse tratado como inimigo.
A ditadura sabia muito bem:
onde o trabalhador se organiza,
o autoritarismo treme.
Por isso, estar aqui hoje, cinquenta anos depois,
é afirmar que eles não venceram.
Mas é também um alerta.
Porque memória não é passado.
Memória é presente.
Memória é disputa permanente.
É exatamente isso que O agente secreto nos lembra.
Quando Wagner Moura afirma que o filme não existiria sem o Brasil recente,
ele está dizendo que o autoritarismo não é uma página virada, infelizmente.
Ele reaparece quando a memória falha.
Quando o trauma não é elaborado.
Quando a violência de ontem é relativizada hoje.
Quando alguém fala em “excessos”,
quando elogia ou exalta torturadores,
quando tentam reescrever a história em nome da conciliação,
não está falando do passado.
Está testando os limites da democracia no presente.
Não há conciliação com o golpismo,
não há dosimetria que apague a violência daqueles que rasgam a democracia em nome da tirania.
Um país que aceita a tortura ontem
passa a tolerar a violência hoje
e pode normalizar o autoritarismo amanhã.
Por isso, lembrar Manoel Fiel Filho é um ato profundamente atual.
A democracia que temos hoje não caiu do céu.
Ela custou luta.
Custou sofrimento.
Custou vidas.
Direitos trabalhistas, liberdade sindical, direito de organização existem porque trabalhadores resistiram —
mesmo quando o Estado tentou esmagá-los.
E toda vez que direitos são atacados,
que sindicatos são criminalizados,
que o trabalho é precarizado e desumanizado,
a história nos mostra que quem paga o preço primeiro somos nós: os trabalhadores.
Por isso, homenagear Manoel Fiel Filho
não é apenas olhar para trás.
É reafirmar um compromisso com o futuro.
Compromisso com a verdade.
Com a justiça.
Com a democracia.
E com os valores que atravessam gerações:
solidariedade, dignidade, organização coletiva e coragem.
Que o nome de Manoel Fiel Filho
não seja apenas lembrança,
mas alerta permanente.
Ditadura nunca mais.
Tortura nunca mais.
Nunca mais assassinato de trabalhadores pelo Estado.
Porque lembrar Manoel Fiel Filho —
como nos lembra a arte, a história e a luta do povo —
é escolher, conscientemente,
de que lado da memória
e de que lado da história
nós queremos estar.







