Rotatividade cai na construção, mas ainda supera 6% ao mês

É a mais alta entre os setores da economia, mas também é a que mais diminuiu

O aquecimento do setor nos últimos cinco anos, acompanhado da falta de mão de obra qualificada no Brasil, tem reduzido o índice que mede o rodízio dos trabalhadores. Entre setembro de 2008 e igual mês deste ano, a rotatividade na construção civil caiu 17,4%. Essa queda só foi maior na administração pública (28,9%), em que a estabilidade faz com que a rotatividade seja próxima a zero.

De acordo com o Ministério do Trabalho, a rotatividade no emprego formal da construção civil ficou em 6,61% em setembro – isso significa que naquele mês 6,6% do total de postos de trabalho formais do setor trocaram de mão, um trabalhador foi demitido ou pediu demissão e outro foi contratado no lugar. O índice é o dobro daquele verificado na indústria de transformação no mesmo mês, de 3,3%. No entanto, essa diferença já foi bem maior. Em setembro de 2008, o “vai e vem” de trabalhadores representou 8% do estoque na construção civil, mas 3,5% na indústria. Isso mostra que a retenção de mão de obra na construção tornou-se uma preocupação dos empresários, sobretudo após o boom provocado por grandes projetos de habitação no governo Lula.

“A construção civil cresceu muito desde 2008. A demanda no setor aumentou e houve, inclusive, um apagão de mão de obra em 2010. A falta de mão de obra é sempre assinalada como o principal fator de limitação à melhoria dos negócios pelos empresários do segmento”, diz Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção na Fundação Getulio Vargas (FGV).

O crescimento do setor pode ser verificado nos dados do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No segundo trimestre de 2008, a construção respondia, em valor agregado, por 5,8% do PIB. Na comparação com igual período de 2012, houve o acréscimo de 0,9 ponto percentual – para 6,7% – na fatia que cabe ao setor na economia.

A alta rotatividade na construção se deve principalmente ao ciclo natural do processo produtivo no setor que, quando encerra uma obra em determinado local, não mantém, necessariamente, os trabalhadores em novas obras, às vezes distantes. E por ser um setor intensivo de mão de obra sem qualificação, o empresário não vê a urgência em mantê-la, segundo Flavio Combat, economista-chefe da Concórdia Corretora.

Além disso, a execução de um projeto na construção abarca várias etapas que não podem ser realizadas simultaneamente – como na indústria, explica Ana Maria. “Não faz sentido manter um eletricista desde o início da obra, que começa pela fundação, construção e alvenaria, até chegar à instalação elétrica e hidráulica”, afirma. Por isso, é forte no setor o movimento de contratação de empresas menores para a realização de cada uma dessas etapas, a chamada “subempreitada”.

Devido a esse caráter “itinerante” da construção durante uma obra e também entre os projetos de uma empresa, há um processo de especialização muito forte dentro do setor, segundo a professora, ainda que falte mão de obra qualificada no mercado – motivo esse que incentiva a retenção de trabalhadores e leva à forte redução da rotatividade na construção.

Segundo o Ministério do Trabalho, a rotatividade mensal no Brasil passou de 4,09% em setembro de 2008 para 3,88% em setembro deste ano, o que representa uma queda de 5,1% no índice. Os menores percentuais são observados na administração pública (0,54%), nos serviços industriais de utilidade pública (1,78%) e na indústria extrativa (1,83%) – dados sempre referentes a setembro de 2012. Comércio (4,18%) e serviços (3,5), assim como a construção, apresentam altas taxas de rotatividade, que recuaram 1,4% e 2,0%, respectivamente, entre setembro de 2008 e igual mês deste ano.

Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria, ressalta que a taxa de desemprego está entre as mínimas históricas. Em outubro, o índice ficou em 5,3%, segundo o IBGE. “O mercado de trabalho apertado aumenta o poder de barganha dos trabalhadores. Essa escassez de mão de obra alimenta a concorrência entre os próprios setores da economia”, diz.

“O ciclo de crescimento da construção cria um horizonte de previsibilidade que não existia, e, por isso, faltava investimento em retenção e qualificação de mão de obra”, afirma Ana Maria. Ela cita a capitalização das empresas do setor, a expansão do crédito imobiliário, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Minha Casa Minha Vida ao longo da última década como fatores que criaram esse cenário favorável para que o empresário da construção investisse no trabalhador.

Combat, da Concórdia, acredita que o ritmo mais lento de vendas e novas construções que é experimentado em 2012 ainda não arrefece o aperto no mercado de trabalho, pelo menos até 2014. “Não é só no mercado imobiliário que há vagas nesse setor. A construção pesada é um importante empregador, sobretudo para as obras de infraestrutura que Copa do Mundo e Olimpíada demandam”, diz.

O Plano Nacional de Logística Integrada, pacote de medidas que inclui obras em portos e aeroportos com valor estimado entre R$ 80 bilhões e R$ 90 bilhões, mantém as perspectivas para que o setor da construção continue crescendo nos próximos anos e que isso tenha reflexo no emprego e em taxas de rotatividade ainda mais decrescentes, na avaliação de Ana Maria. As empresas, inclusive as de sub-empreitada, explica, não querem perder trabalhadores em decorrência desse cenário favorável à construção e a concorrência natural que surge entre os próprios empregadores. “A manutenção desse quadro depende exclusivamente de o setor conseguir sustentar suas taxas de crescimento”, diz.

Fonte: Valor Econômico

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