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Francisco na Ásia: “compaixão profunda” x “compaixão mundana”

Na Europa há um acirrado debate entre os que defendem os valores ocidentais, em nome da “liberdade de expressão”, e os que defendem a dignidade do homem, o respeito aos valores das diferentes religiões e a tolerância religiosa

*Elisabeth Hellenbroich, de Wiesbaden

Foi uma viagem muito agitada a que o papa Francisco fez ao Sri Lanka e às Filipinas, entre os dias 12 e 19 de janeiro. A recepção dada ao Pontífice, em sua segunda visita pastoral à Ásia (a primeira foi para a VI Jornada da Juventude Asiática, na Coreia do Sul, em agosto de 2014), foi tão acolhedora que, em Manila, seis milhões de pessoas foram vê-lo debaixo de chuva, de longe, o maior número de pessoas que já participou de uma celebração conduzida por um Pontífice ao ar livre.

A viagem transmitiu uma clara mensagem e provocou reações na Europa Ocidental, em particular. Um recado simples, mas desafiador, que o Pontífice endereçou em especial aos jovens, sobre valores essenciais: o respeito à dignidade humana e à liberdade de culto e de expressão, o amor verdadeiro, que é amar o outro – os doentes, os órfãos, as crianças de rua e os pobres – e aceitar ser amado. Ele falou sobre a necessidade de uma vida familiar funcional em sociedade, baseada no amor e no respeito pelas crianças. Na entrevista coletiva que antecedeu a sua chegada a Manila, ele respondeu, quando interrogado sobre qual seria a sua principal mensagem: “O centro, o núcleo da mensagem será o pobre, aquele que quer seguir adiante; que sofreu por causa do tufão Yolanda e que ainda sente as suas consequências; que tem fé e esperança nessas comemorações do quinto centenário da pregação do Evangelho nas Filipinas”.

Na entrevista, Francisco fez oportunas declarações sobre a questão da liberdade religiosa e de expressão. “Ninguém pode matar em nome de Deus”, disse. Qualificando tal ato de “aberração”, ele destacou que o principal aspecto em relação à liberdade de religião é de que esta “deve ser livre, mas sem ofender, sem imposições e sem matar. (…) Cada um não tem apenas a liberdade, o direito, mas tem também o dever de dizer o que pensa para ajudar o Bem Comum. (…) Ninguém pode provocar, nem insultar a fé de outrem”. Em seguida, ele fez uma brincadeira com um amigo, Alberto Gasbarri, organizador das viagens papais, dizendo que “se Gasbarri, meu grande amigo, xingar a minha mãe, ele vai levar um soco. Isso é normal. Ninguém pode provocar nem insultar a fé alheia. Ninguém pode desprezar a fé”.

O Papa falou sobre o “legado do Iluminismo” e destacou que “há um limite. Toda a religião tem dignidade, cada religião que respeita a vida humana, a pessoa humana. E eu não posso brincar com isso”.

No momento, trava-se na Europa um acirrado debate entre os que defendem os valores ocidentais, em nome da “liberdade de expressão”, e os que defendem a dignidade do homem, o respeito aos valores das diferentes religiões e a tolerância religiosa. Nos últimos dias, o diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) publicou vários artigos, atacando o papa por ter usado a expressão “socar alguém no nariz”, argumentando, falaciosamente, que ele teria mostrado desprezo pelo “monopólio do uso da força pelo Estado”, o que é um elemento-chave do “Estado iluminista”.

Enquanto, na Europa, o cristianismo vem perdendo de forma sensível a sua atração juntos aos jovens, há uma renascença cristã em curso na Ásia, pelo que este continente está se tornando o centro geográfico da atenção do Papa. Em parte, esse renascimento se deve às reações de um número crescente de pessoas que começam a rejeitar as elites políticas autocráticas e corruptas e procuram uma verdade espiritual elevada que esteja além do reino material, independentemente de serem ricos ou pobres. A mensagem do Pontífice, repetida ao longo de toda a viagem, era a de que o amor de Jesus deve ser aceito e passado adiante. Não se trata apenas de dar amor, mas também da capacidade do homem de “recebê-lo” e procurá-lo como um “mendigo”.

No Sri Lanka, Francisco canonizou um grande evangelizador, São José Vaz, um missionário do século XVI, que viajou de Goa, Índia, para o antigo Ceilão, inspirado pelo zelo missionário e pelo grande amor pelo seu povo, tendo o desejo particular de servir aos doentes e sofredores. “Ele viveu em um período de profunda transformação. Os católicos eram uma minoria e, frequentemente, divididos entre si, e houve ocasionalmente perseguições” disse o Pontífice, durante a celebração da canonização. Ele enfatizou que a vida de São José Vaz nos ensina “a verdadeira adoração de Deus não leva à discriminação, ao ódio e à violência; em respeito à sacralidade da vida, ela leva à dignidade e à liberdade do outro e ao comprometimento com o bem-estar de todos”.

Um destaque da visita foi o seu discurso aos estudantes da Universidade de São Tomás, em Manila, e os testemunhos dados por vários estudantes, bem como a sua visita à ilha de Tacloban, que foi devastada por um tufão, há 14 meses. Sob condições climáticas bastante adversas, o Pontífice proferiu uma homilia expressando a sua profunda solidariedade com os sobreviventes da tragédia, a maioria dos quais perdeu tudo.

Em 18 de janeiro, em Manila, Francisco celebrou o “Domingo do Menino Santo” para seis milhões de pessoas. A sua principal mensagem foi sobre a necessidade de proteger a família de ataques insidiosos, destacando que a família é o núcleo da sociedade e que o cuidado com as crianças é fundamental: “Precisamos proteger, guiar e encorajar os nossos jovens, ajudando-os a construir uma sociedade baseada em uma grande herança espiritual e cultural. Especificamente, precisamos ver cada criança como um presente a ser bem recebido, bem tratado e protegido. E precisamos cuidar de nossos jovens, não permitindo que sejam privados de esperança e condenados a viver nas ruas”.

Na Universidade de São Tomás, o Pontífice se dirigiu a representantes da juventude filipina e falou sobre o significado do amor humano como elemento crucial para a construção de uma sociedade justa. Durante testemunhos dados diante do Papa, muitos jovens falaram do seu próprio passado como crianças de rua, a enorme pobreza que sofreram – com falta de comida, abrigo, vestimentas, tornando-se vítimas de abusos e calamidades.

Um estudante falou sobre a “abundância de informações na internet” e pediu ao Papa uma orientação em nome dos jovens das Filipinas: “Em uma palavra, onde os jovens estão expostos à internet de alta velocidade, mensagens de texto ilimitadas, relacionamentos românticos instantâneos e um estilo de vida superficial, como podemos parar, refletir e ouvir a vontade de Deus? E, por último Santo Padre, o que é o verdadeiro amor?”.

Em resposta a tantos testemunhos, principalmente, os das pessoas que sofreram com tragédias naturais ou com as agruras da pobreza, o Pontífice enfatizou que somente quando nós “choramos” sobre muitas das coisas com que nos identificamos, é que nos aproximamos da capacidade de responder tal questão: “Por que as crianças sofrem tanto? Por que as crianças sofrem? Quando o coração está disponível a se perguntar e a chorar, então, nós podemos entender algo”. Ele fez uma distinção entre uma “compaixão mundana”, que leva as pessoas apenas a colocar a mão no bolso e dar qualquer coisa a alguém, e uma verdadeira e “profunda compaixão”, que é capaz de chorar. “No mundo atual, há uma grande falta de capacidade de saber como chorar. As pessoas marginalizadas choram. Aqueles que são deixados de lado choram. Mas aqueles entre nós que vivem uma vida mais ou menos sem necessidades não sabem como chorar”, afirmou.

“Se vocês não aprenderam como chorar, vocês não podem ser bons cristãos”, disse ele. O mesmo se pode dizer em relação à questão de como lidar com a abundante informação que não torna os jovens mais sábios, mas os transforma em “jovens museus”. A coisa mais importante a aprender na vida é o amor, e que “o amor verdadeiro é sobre amar e deixar ser amado”.

Fonte: Revista Resenha Estratégica / Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa)

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