A redução da jornada precisa ser uma conquista por inteiro
Trabalhar é parte fundamental da vida. Mas viver não pode se resumir ao trabalho. Durante muito tempo, milhões de brasileiros organizaram sua existência em torno de jornadas que deixavam pouco espaço para a família, o descanso, a saúde e os próprios sonhos. A conquista de mais tempo livre representa, portanto, muito mais do que uma mudança na legislação. É um avanço na valorização de quem trabalha e ajuda a construir a riqueza deste país.
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O fim da escala 6×1 e a transição para o modelo 5×2 representam uma oportunidade concreta de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Dois dias de descanso significam mais tempo para acompanhar o crescimento dos filhos, cuidar da saúde, buscar qualificação profissional e fortalecer os vínculos familiares. Significam, sobretudo, devolver às pessoas uma parte da vida que não pode ser medida apenas em horas de produção.
Essa conquista precisa caminhar ao lado de duas garantias fundamentais, que residem na preservação dos salários e a proteção dos empregos. Reduzir a jornada não pode significar reduzir a renda, assim como ampliar o descanso não pode resultar em sobrecarga nos demais dias da semana. O avanço precisa ser completo. Afinal, não existe qualidade de vida quando o trabalhador perde poder de compra, teme pelo emprego ou precisa produzir em cinco dias o que antes fazia em seis, à custa da própria saúde.
À frente da Fentitabaco, compreendo a dimensão dessa responsabilidade. Nossa indústria possui particularidades que não podem ser ignoradas. Os diferentes turnos, a sazonalidade da produção e os períodos de safra exigem planejamento e capacidade de adaptação. A continuidade das atividades industriais é igualmente importante para quem depende delas para garantir o sustento de sua família.
É justamente nesse cenário que o diálogo e a negociação coletiva se tornam indispensáveis. Não se trata de escolher entre o trabalhador e a atividade econômica. Trata-se de construir condições para que ambos avancem. Os sindicatos conhecem a realidade do chão de fábrica, os desafios das empresas e, principalmente, as necessidades de quem diariamente movimenta a produção. Essa experiência precisa estar presente em cada decisão.
Defender o fim da escala 6×1 também significa assumir o compromisso de acompanhar sua implementação. Conquistas trabalhistas não se sustentam apenas no papel. Precisam produzir resultados na vida das pessoas, com responsabilidade, fiscalização e participação efetiva de suas entidades representativas.
O trabalho deve garantir dignidade, renda e oportunidades. Mas também precisa permitir que cada pessoa tenha tempo para desfrutar daquilo que seu esforço ajuda a construir. Porque o desenvolvimento só faz sentido quando se transforma em qualidade de vida. E nenhuma transformação nas relações de trabalho será verdadeiramente completa sem a participação de seus principais protagonistas, sobretudo, nada de nós, sem nós.
Por Rangel Marcon, presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias do Tabaco (Fentitabaco)
(Foto: Reprodução/Magnific)







