Carregadores são resgatados de trabalho escravo nos preparativos do Lollapalooza

Trabalho escravo nos preparativos do Lollapalooza – Os preparativos para o festival Lollapalooza, que começa nesta sexta-feira (24) em São Paulo, incluem um cenário bem menos positivo que a diversão dos fãs ao verem seus artistas preferidos nos palcos que receberão alguns dos nomes mais famosos da música mundial, como Billie Eilish e Drake. 

Nesta semana, cinco pessoas foram resgatadas em condições de escravidão contemporânea trabalhando nos preparativos para o festival que ocorre no autódromo de Interlagos, na zona sul da capital paulista. A informação foi revelada por Gil Alessi, do portal Repórter Brasil.

Sem qualquer registro, conforme manda a lei trabalhista, os trabalhadores resgatados tinham entre 22 e 29 anos e “não tinha dignidade alguma”, conta o auditor fiscal do Trabalho Rafael Brisque Neiva, que participou da operação feita pela Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo, ligada ao Ministério do Trabalho. 

“Eles dormiam dentro de uma tenda de lona aberta e se acomodavam no chão. Não recebiam papel higiênico, colchão, equipamento de proteção”, relata. 

Trabalhadores relatam abusos

Um dos resgatados, que não teve seu nome revelado, disse ao repórter que ele e os demais trabalhadores carregavam bebidas em jornadas de 12 horas por dia. 

“Depois de levar engradados e caixas pra lá e pra cá, a gente ainda era obrigado pela chefia a ficar na tenda de depósito, dormindo em cima de papelão e dos paletes, para vigiar a carga”, contou. 

Os trabalhadores relataram que eram ameaçados com demissão caso deixassem o local após o expediente. Era exigido deles que vigiassem a carga nas tendas até o dia seguinte, embora esse serviço não tenha sido combinado previamente. 

Segundo eles, o combinado era que haveria acomodação em um local próprio para hospedagem, após a jornada na carga e descarga de bebidas, e R$ 100 por dia de trabalho.  

“Mas no primeiro dia disseram que eu ia ter que dormir na tenda. Quando perguntei onde, me disseram: ‘desenrola uns papelões aí para você”, contou um dos trabalhadores. 

Empresas serão responsabilizadas

Os resgatados prestavam serviço para a empresa Yellow Stripe, que fornecia mão de obra para a Time 4 Fun, organizadora do Lollapalooza no Brasil. As duas foram notificadas pelo caso e serão responsabilizadas, afirmou o fiscal. 

As empresas foram obrigadas a pagar aproximadamente R$ 10 mil a cada um dos trabalhadores por salários atrasados, horas extras e verbas rescisórias. O valor pode aumentar caso o Ministério Público do Trabalho também peça verbas indenizatórias. 

“Nós não temos nenhuma dúvida de que a T4F foi omissa e faltou com a devida diligência no seu dever legal de fiscalizar o cumprimento da legislação trabalhista por parte da contratada”, diz Rafael Augusto Vido da Silva, outro auditor que participou do resgate. 

Com 3 dias de shows, o Lollapalooza tem ingressos que vão de R$ 1.300, que dá acesso a apenas um dia do evento, até R$ 5.300, que inclui entrada para todos os dias, além de experiências VIP como áreas reservadas com cadeira de massagem. 

Segundo a prefeitura de São Paulo, o festival movimentou mais de R$ 400 milhões no ano passado. 

A Time 4 Fun informou que mais de 9 mil pessoas trabalham nos preparativos para o festival e tem como prioridade garantir “as devidas condições de trabalho”. O comunicado diz ainda que é “terminantemente proibido” dormir no local e que encerrou “imediatamente” a relação com a terceirizada Yellow Stripe. 

A Yellow Stripe, por sua vez, afirma que “cumpriu as determinações do Ministério do Trabalho, sendo que os empregados em questão foram devidamente contratados e remunerados”. 

Confira a íntegra da nota da Time 4 Fun:

Para realizar um evento do tamanho do Lollapalooza Brasil, que ocupa 600 mil metros quadrados no Autódromo de Interlagos e tem a estimativa de receber um público de 100 mil pessoas por dia, o evento conta com equipes que atuam em diferentes frentes de trabalho, em departamentos que variam da comunicação a operação de alimentos e bebidas, da montagem dos palcos a limpeza do espaço e a segurança. São mais de 9 mil pessoas que trabalham diretamente no local do evento e são contratadas mais de 170 empresas prestadoras de serviços. 

A T4F, responsável pela organização do Lollapalooza Brasil, tem como prioridade que todas pessoas envolvidas no evento tenham as devidas condições de trabalho garantidas e, portanto, exige que todas as empresas prestadoras de serviço façam o mesmo. 

Nesta semana, durante uma fiscalização do Ministério do Trabalho no Autódromo de Interlagos, foram identificados 5 profissionais da Yellow Stripe (empresa terceirizada responsável pela operação dos bares do Lollapalooza Brasil), que, na visão dos auditores, se enquadrariam em trabalho análogo à escravidão. Os mesmos trabalharam durante 5 dias dentro do Autódromo de Interlagos e, segundo apurado pelos auditores, dormiram no local de trabalho, algo que é terminantemente proibido pela T4F. 

Diante desta constatação, a T4F encerrou imediatamente a relação jurídica estabelecida com a Yellow Stripe e se certificou que todos os direitos dos 5 trabalhadores envolvidos fossem garantidos de acordo com as diretrizes dos auditores do Ministério do Trabalho. A T4F considera este um fato isolado, o repudia veementemente e seguirá com uma postura forte diante de qualquer descumprimento de regras pelas empresas terceirizadas.

Informações e reportagem: Repórter Brasil

Edição: Brasil Independente

Foto: G1

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