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Corte fiscal pode reduzir o PIB em 1,55%, eliminar postos de trabalho e provocar perdas de R$ 68,7 bilhões na massa salarial

‘Tesouraço’ de Flávio Bolsonaro ameaça 2,2 milhões de empregos e renda dos trabalhadores, aponta Dieese

A proposta de ajuste fiscal de aproximadamente R$ 200 bilhões, defendida pela equipe econômica do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), pode provocar perdas expressivas para o mercado de trabalho, reduzir a renda dos trabalhadores e comprometer a arrecadação tributária do país.

É o que aponta o estudo elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com o objetivo de avaliar os possíveis efeitos da medida sobre a economia brasileira.

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De acordo com a Síntese Especial nº 25 — Subsídios para Debate (clique aqui para acessar o documento), os cortes de despesas públicas poderiam eliminar cerca de 2,2 milhões de postos de trabalho logo no primeiro ano de implementação, isto é, em 2027. O estudo também estima uma redução de R$ 68,7 bilhões na massa salarial e uma perda de R$ 46,8 bilhões em receitas tributárias. Além disso, a retração da atividade econômica seria de 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB).

Os números indicam que a política de austeridade pode atingir diretamente a vida dos trabalhadores, com menos oportunidades de emprego, redução da renda e enfraquecimento da demanda por bens e serviços. Além disso, a queda da arrecadação diminuiria parte da economia inicialmente esperada com os cortes, colocando em dúvida a capacidade da proposta de alcançar o equilíbrio das contas públicas.

Como funcionaria o ajuste fiscal de R$ 200 bilhões?

A proposta conhecida como “tesouraço” prevê uma redução expressiva das despesas públicas para melhorar o resultado fiscal e controlar a trajetória da dívida. O plano seria implementado por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), com diferentes medidas de corte que poderiam ser combinadas para alcançar a meta.

A simulação considera uma redução de R$ 116,9 bilhões nas despesas no primeiro ano. Em 18 meses, os cortes chegariam a R$ 175,4 bilhões. Somado ao superávit primário de R$ 18,6 bilhões previsto no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, o montante alcançaria aproximadamente R$ 194 bilhões, equivalente a 1,5% do PIB.

O estudo distribui os cortes estimados em três grandes grupos:

• 51% em transferências de renda: despesas previdenciárias, abono salarial, seguro-desemprego e Benefício de Prestação Continuada (BPC).
• 17% em despesas com pessoal: gastos com servidores públicos e encargos sociais.
• 32% nas demais despesas: outros gastos do governo, incluindo recursos destinados ao funcionamento da administração pública.

A magnitude do ajuste torna difícil alcançar a economia anunciada sem afetar despesas relevantes para a população. O relatório destaca que cortes dessa dimensão exigiriam mudanças em regras constitucionais que protegem determinadas despesas, como o piso previdenciário vinculado ao salário mínimo e os investimentos mínimos em saúde e educação.

Embora Flávio Bolsonaro tenha afirmado que não pretende cortar benefícios sociais nem alterar os pisos constitucionais dessas áreas, o Dieese aponta uma contradição entre essa promessa e a dimensão do ajuste anunciado. A utilização de uma PEC abre a possibilidade de modificar justamente regras que garantem recursos para políticas públicas e benefícios sociais.

Massa salarial pode perder R$ 68,7 bilhões

Um dos principais impactos previstos pelo estudo está na massa salarial, que corresponde ao conjunto dos rendimentos recebidos pelos trabalhadores. Na simulação do Dieese, o ajuste fiscal provocaria uma redução de aproximadamente R$ 68,7 bilhões na massa salarial em 2027, em comparação com o cenário sem os cortes.

Essa perda estaria relacionada tanto à eliminação de postos de trabalho quanto à desaceleração da atividade econômica. Com menos pessoas empregadas, diminui o volume de salários pagos. Ao mesmo tempo, a redução das despesas públicas afeta a demanda por produtos e serviços, atingindo empresas e setores que dependem do consumo das famílias.

A queda da massa salarial significa menos dinheiro circulando, enquanto a desaceleração econômica pode dificultar a geração de novas vagas de emprego e limitar a recuperação dos rendimentos.

O impacto também pode alcançar o comércio e os serviços, já que as famílias com menor renda tendem a destinar uma parcela significativa de seus recursos ao consumo. Quando esse dinheiro deixa de circular, empresas podem registrar queda nas vendas, reduzir atividades e adiar contratações, ampliando os efeitos negativos sobre o mercado de trabalho.

O relatório aponta que a redução dos gastos públicos não se limita às contas do governo e pode se propagar pela economia, atingindo a renda das famílias, a atividade das empresas e a capacidade de geração de empregos.

Medida pode eliminar 2,2 milhões de postos de trabalho e causar desemprego em massa

A simulação do Dieese estima que o ajuste fiscal provocaria a perda de aproximadamente 2,23 milhões de postos de trabalho no primeiro ano.

Segundo o documento, para manter a taxa de desocupação estável, o país precisaria gerar pelo menos 1,33 milhão de postos de trabalho formais e informais por ano, considerando o crescimento da população economicamente ativa.

O estudo também avalia dois cenários de crescimento para 2027 e conclui que, mesmo na hipótese mais favorável e otimista, a criação de empregos seria insuficiente para acompanhar a entrada de novas pessoas no mercado de trabalho.

Indicador para 2027Cenário otimistaCenário pessimista
Crescimento do PIB sem o ajuste2,46%1,40%
Crescimento do PIB com o ajuste0,91%-0,15%
Saldo de postos de trabalho com o ajuste1,14 milhão-271 mil

No cenário otimista, a economia cresceria 0,91%, mas geraria cerca de 1,14 milhão de postos de trabalho, abaixo dos 1,33 milhão necessários para manter estável a taxa de desemprego.

Já no cenário pessimista, a aplicação do ajuste levaria a uma retração de 0,15% do PIB, acompanhada de saldo negativo de aproximadamente 271 mil postos de trabalho.

A taxa de desocupação poderia subir para uma faixa entre 6,5% e 7%, e o número de desempregados aumentaria de 5,8 milhões para 7,4 milhões, conforme as estimativas apresentadas no relatório.

Os resultados sobre os efeitos de uma política de cortes concentrada em despesas que movimentam a economia evidenciam a complexidade da medida defendida pela campanha de Flávio Bolsonaro.

Para trabalhadores, a consequência pode ser um mercado de trabalho com menos oportunidades, maior dificuldade de recolocação profissional e redução da renda familiar.

Arrecadação tributária pode cair R$ 46,8 bilhões, influenciando mercado

Além dos impactos sobre o emprego e a renda, o chamado “tesouraço” pode reduzir a arrecadação tributária em R$ 46,8 bilhões no primeiro ano de implementação, segundo a simulação.

Essa perda ocorre porque a atividade econômica influencia diretamente a arrecadação. Quando os gastos públicos diminuem, a economia perde parte da demanda que movimenta empresas, produção, comércio e serviços. Com menos consumo e renda, a base sobre a qual incidem diversos tributos também se reduz.

A queda da arrecadação consumiria cerca de 40% da economia bruta de R$ 116,9 bilhões prevista para o primeiro ano. Descontada essa perda de receitas e somado o superávit primário inicialmente projetado, o resultado primário ficaria em aproximadamente R$ 88,7 bilhões, ou 0,7% do PIB.

O relatório destaca que esse resultado seria insuficiente para estabilizar a relação entre a dívida pública e o PIB nas condições econômicas consideradas pelo estudo. Dessa forma, o corte de despesas poderia produzir efeitos negativos sobre a atividade econômica sem garantir o principal objetivo fiscal anunciado.

Cortes em benefícios e serviços públicos podem afetar a população

O Dieese avalia que a dimensão do ajuste exigiria medidas com potencial para atingir a Previdência Social, a assistência, a saúde, a educação e a estrutura do serviço público.

No caso das transferências de renda, o relatório estima que os cortes em despesas previdenciárias, abono salarial, seguro-desemprego e BPC teriam impacto expressivo sobre a atividade econômica. Isso ocorre porque esses recursos são destinados diretamente a famílias que utilizam parte significativa do dinheiro para pagar despesas cotidianas e consumir bens e serviços.

A simulação atribui às transferências de renda um multiplicador fiscal de 2,68. Isso significa que, conforme o modelo adotado, cada R$ 1 destinado a essas despesas está associado a um efeito de R$ 2,68 sobre o PIB. Por esse motivo, a redução desses recursos teria consequências que vão além dos beneficiários diretos, alcançando o comércio, a produção e o emprego.

O estudo também projeta efeitos sobre os servidores públicos. A contenção das despesas pode significar congelamento dos salários em termos reais, ausência de novas nomeações e redução dos recursos para investimentos. Isso pode limitar a reposição de profissionais e dificultar a ampliação da capacidade de atendimento dos serviços públicos.

A proposta também menciona a retomada da discussão sobre a reforma administrativa, por meio da PEC 32, além da redução da estrutura ministerial e da venda de patrimônio público. Segundo a análise, medidas como essas, isoladamente, dificilmente alcançariam a economia necessária sem atingir políticas públicas de maior alcance.

Por que o corte pode não resolver o problema da dívida pública?

A análise do Dieese questiona se o ajuste fiscal, da forma como foi apresentado, seria suficiente para estabilizar a dívida pública. O relatório argumenta que a dinâmica do endividamento também depende do custo dos juros e do ritmo de crescimento da economia, e não apenas do volume das despesas primárias do governo.

Os cortes poderiam reduzir a demanda interna, desacelerar a produção, diminuir a renda e derrubar a arrecadação. Com receitas menores, parte da economia obtida inicialmente seria perdida, dificultando o cumprimento das metas fiscais.

Esse mecanismo pode criar um ciclo de efeitos negativos: o governo corta despesas para economizar, a atividade econômica perde força, a arrecadação diminui e a pressão por novos cortes aumenta. A repetição desse processo pode agravar a desaceleração econômica, prejudicando o emprego e a renda sem assegurar o equilíbrio das contas públicas.

O relatório também chama a atenção para o fato de que o plano divulgado não apresenta medidas de ampliação da tributação sobre as altas rendas e os grandes patrimônios. Na avaliação do Dieese, a ausência de alternativas desse tipo concentra o esforço fiscal nas despesas públicas, enquanto outras possibilidades de distribuição do ajuste permanecem desconsiderados pela proposta.

Impactos do tesouraço vão além das contas públicas

A conclusão da simulação é que o ajuste fiscal de R$ 200 bilhões pode impor custos econômicos e sociais elevados, especialmente para a classe trabalhadora. A redução de postos de trabalho, a perda na massa salarial e a queda de bilhões na arrecadação indicam que os cortes podem repercutir sobre diferentes dimensões da economia.

Para quem vive do trabalho, esses efeitos podem se traduzir em menos vagas disponíveis, maior dificuldade para conseguir emprego, redução da renda que sustenta as famílias e pressão sobre serviços públicos e benefícios sociais.

O estudo ressalta que as estimativas dependem dos pressupostos utilizados e que a ausência de detalhes da proposta limita a precisão da avaliação. Ainda assim, os cenários apresentados pelo Dieese apontam para riscos elevados de desaceleração econômica e deterioração do mercado de trabalho.

Confira os principais pontos do plano para os trabalhadores:

• Salários
O corte de gastos pode reduzir a massa salarial em R$ 68,7 bilhões no primeiro ano. A queda no número de trabalhadores empregados e na atividade econômica tende a diminuir a renda disponível para as famílias.

• Trabalho e emprego
O cenário-base estima a eliminação de aproximadamente 2,2 milhões de postos de trabalho em 2027. Em uma hipótese mais pessimista, o desemprego poderia subir de 5,8 milhões para 7,4 milhões de pessoas.

• Custos e poder de compra
Com menos empregos e salários circulando na economia, as famílias podem ter maior dificuldade para manter o consumo e arcar com despesas cotidianas. A redução da atividade econômica também pode prejudicar o comércio e os serviços.

• Serviços públicos
A diminuição das despesas governamentais pode pressionar áreas como saúde e educação, além de comprometer investimentos e a capacidade de atendimento à população. O relatório também aponta possíveis restrições a novas contratações no serviço público e impactos sobre a remuneração dos servidores.

• Renda e benefícios sociais
Cerca de 51% dos cortes simulados recaem sobre transferências de renda, como aposentadorias, abono salarial, seguro-desemprego e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Reduções nessas despesas podem atingir diretamente trabalhadores, aposentados e famílias que dependem desses recursos.

• Arrecadação e atividade econômica
A queda da atividade econômica pode reduzir a arrecadação tributária em R$ 46,8 bilhões no primeiro ano, consumindo parte significativa da economia inicialmente prevista com os cortes. Isso pode limitar os resultados fiscais esperados e ampliar os efeitos negativos.

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