A maternidade continua sendo um dos principais fatores de desigualdade no mercado de trabalho brasileiro. Um levantamento realizado com mulheres em cargos de liderança revela que 8 em cada 10 mães (79%) que tentam conciliar a carreira com a criação dos filhos já enfrentaram obstáculos de gênero. O índice supera a média geral de 77% e os 73% registrados entre mulheres que não têm filhos.
O estudo, realizado pela Todas Group em parceria com a Nexus, empresa de pesquisa e inteligência de mercado, destaca uma vulnerabilidade específica: mães contam com menos apoio de outras mulheres ao longo de sua trajetória. Enquanto 45% das profissionais sem filhos afirmam ter recebido ajuda feminina, o número cai para 38% entre as que são mães.
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Ao todo, 1.548 mulheres foram ouvidas em fevereiro. Os dados mostram que 33% das mães relatam ter enfrentado “muitas barreiras” para crescer, contra 28% das profissionais sem filhos.
Para Mariana Bicalho, fundadora da comunidade Mommys, a estrutura social atual é implacável. “A mulher é cobrada para performar no trabalho como se não tivesse filhos e cuidar da casa como se não trabalhasse”, afirma. Essa pressão reflete-se em números alarmantes de outra pesquisa, realizada pela Mommys com a Consultoria Maya: 78,4% das 400 mães ouvidas já deixaram de buscar crescimento profissional devido à maternidade.
Além disso, 9 em cada 10 entrevistadas relataram sobrecarga, mesmo em contextos de união estável ou casamento (83,7% dos casos). Mariana, que deixou a advocacia ao engravidar há 15 anos por falta de apoio, reforça que a construção cultural sobre o que é ser uma “boa mãe” pesa diretamente nas decisões de carreira.
A trajetória de Polyana Ferrari, diretora global de Social Media da Deezer, ilustra a necessidade de estratégias extremas. Mãe solo por escolha, ela optou por consolidar a carreira e atingir estabilidade financeira antes de iniciar o processo de fertilização in vitro (FIV) aos 36 anos.
“Eu queria já estar num lugar da carreira em que, se não crescesse mais, eu estivesse tranquila profissional e financeiramente”, explica Polyana. Mesmo com rede de apoio, ela descreve a readaptação pós-maternidade como um processo de exaustão e necessidade de novos limites. “Você se redescobre como profissional. Tem menos tempo, menos energia e muitas caixinhas abertas na cabeça. E a sociedade ainda não considera isso com naturalidade.”
No setor de serviços, a empresária Mariele Horbach, de 42 anos, relata que o desafio persiste mesmo sendo a própria chefe. Atuando em um ramo majoritariamente masculino, ela enfrenta desconfiança constante. “Sempre que eu vou a uma reunião com fornecedores, que geralmente são todos homens, preciso me autovalidar”, conta a mãe de dois filhos.
Na alta gestão corporativa, o preço da conciliação pode ser a saúde mental. Adriana Alcântara, diretora-geral da Audible no Brasil, recorda ter sofrido um burnout ao assumir um novo cargo com viagens frequentes logo após a licença-maternidade. “Voltei a trabalhar pós-licença-maternidade, aceitei um desafio novo, o que foi um erro”, avalia, pontuando que mulheres líderes ainda são avaliadas de forma distinta em relação aos homens.
Para Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, os dados indicam que a maternidade não interrompe a trajetória de forma absoluta, mas altera suas condições.
“O que vemos é uma combinação de maior percepção de barreiras, redução da rede de apoio e aumento das renúncias”, conclui.
(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Magnific)







