A audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) discutiu os impactos da restrição às apostas on-line sobre o orçamento das famílias brasileiras. Durante o encontro, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Carlos Galassi, apresentou dados que apontam crescimento nas compras de alimentos após a proibição das bets no país e defendeu a manutenção da medida provisória que suspendeu a atividade.
A apresentação ocorreu na terça-feira (3), durante audiência pública convocada pelo ministro Luiz Fux, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 8.027, que questiona a constitucionalidade da Medida Provisória (MP) 1.394/26.
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De acordo com levantamento da Abras, realizado em parceria com a NielsenIQ, o consumo de alimentos nos lares brasileiros aumentou 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro e 6,3% entre os dias 12 e 18 do mesmo mês, na comparação com os períodos equivalentes de 2025. Na semana seguinte, a alta registrada foi de 5,4%.
Segundo Galassi, o crescimento foi observado em diferentes formatos de estabelecimentos do varejo alimentar, com destaque para aqueles frequentados pelas famílias das classes C, D e E, que comprometem uma parcela maior da renda com a compra de alimentos.
O dirigente também destacou que o reajuste do Bolsa Família começou a ser pago em 19 de outubro, depois dos dois primeiros períodos analisados. Por isso, o benefício não explicaria o aumento registrado anteriormente.
“O alimento está voltando para a mesa dos trabalhadores e essa transformação é que precisamos conservar”, argumentou.
Apostas on-line e comprometimento da renda dos trabalhadores
Durante a audiência, o presidente da Abras chamou atenção para os efeitos das apostas esportivas sobre o orçamento doméstico. Uma pesquisa divulgada pela Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), elaborada pela Unicamp com 1.500 apostadores das classes C, D e E, revelou que 41% dos entrevistados diminuíram gastos com alimentação, medicamentos ou produtos de higiene para manter o dinheiro destinado aos jogos.
O levantamento também apontou que 81% dos participantes estavam endividados e 99% relataram prejuízos com apostas nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Segundo Galassi, parte dos consumidores que perde dinheiro nos jogos acaba recorrendo a empréstimos para reorganizar as contas, o que pode ampliar o endividamento, especialmente em um cenário de juros elevados.
O dirigente também mencionou uma estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), segundo a qual os custos diretos e indiretos dos danos relacionados às apostas chegam a R$ 30 bilhões por ano na área da saúde.
Recuperação do consumo pode movimentar mais de R$ 50 bilhões
Na avaliação apresentada pela Abras, a recuperação do poder de compra das famílias pode produzir efeitos positivos em diferentes setores da economia. Galassi projetou que, caso o consumo de alimentos registre uma recuperação de 4% ao longo de 2026, o volume de compras que deixou de ser realizado pelas famílias poderá ultrapassar R$ 50 bilhões.
O presidente da entidade também citou dados do Banco Central, divulgados pela Agência Brasil, que indicaram uma queda inicial de 10% nas transações via Pix nos três primeiros dias após a proibição das apostas. Além disso, mais de R$ 1 bilhão em saldos foi devolvido aos apostadores durante outubro.
(Com informações de Migalhas)
(Foto: Antonio Augusto/STF)







