falta-reconhecimento-trabalho-sofrimento-saude-mental
Pesquisa analisa relatos de trabalhadores e mostra como fatores podem contribuir para o sofrimento

Falta de reconhecimento no trabalho pode aumentar sofrimento e afetar saúde mental

A falta de reconhecimento profissional pode se tornar um fator de sofrimento e adoecimento no ambiente de trabalho. É o que aponta uma pesquisa conduzida pelo pesquisador Ricardo Bertoni Pompeu, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, que investigou como esforços que não aparecem nas metas e nos indicadores das empresas podem afetar a saúde dos trabalhadores.

A pesquisa resultou na tese de doutorado “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional” e reuniu depoimentos de 18 trabalhadores, com idades entre 20 e 40 anos, que atuavam em diferentes setores.

LEIA: Saúde mental já gerou quase 1 milhão de horas de afastamentos do trabalho em 2026

Os relatos apontam situações como assédio, cobranças excessivas, metas consideradas inalcançáveis, falta de recursos, estagnação profissional, ausência de perspectivas e invisibilização dos esforços realizados no cotidiano.

Trabalho envolve esforços que não aparecem nas metas

Para desenvolver a pesquisa, Pompeu partiu da chamada Teoria do Reconhecimento, do filósofo alemão Axel Honneth, e da Psicodinâmica do Trabalho, desenvolvida pelo psiquiatra francês Christophe Dejours.

Um dos conceitos utilizados no estudo é o de trabalho real, que corresponde aos esforços necessários para executar uma atividade e que nem sempre são percebidos pelos empregadores.

A elaboração de um relatório, por exemplo, não se resume a preencher informações em um computador. O trabalhador precisa decidir quais dados utilizar, como organizá-los e qual nível de profundidade aplicar. Também enfrenta condições físicas do ambiente e equipamentos, além de questões afetivas e emocionais relacionadas à própria atividade.

Há ainda o esforço psíquico envolvido na avaliação constante do próprio desempenho, como dúvidas sobre a qualidade do trabalho e o receio de ser considerado incompetente.

Segundo a pesquisa, as organizações costumam avaliar principalmente o resultado final ou aquilo que está previsto formalmente para cada função. Dessa forma, parte significativa do esforço necessário para que o trabalho seja realizado permanece invisível.

Cobrança permanente pode gerar sensação de insuficiência

A inspiração para o estudo surgiu, em parte, da convivência do pesquisador com estudantes da Fatec de Americana, no interior de São Paulo. Muitos deles conciliam trabalho e estudos e, segundo os relatos analisados por Pompeu, convivem com a sensação de que aquilo que já fazem nunca é suficiente.

A busca permanente por produtividade e desenvolvimento pode se transformar em uma cobrança contínua por resultados maiores, mesmo quando o trabalhador já enfrenta uma rotina intensa.

Assim, o reconhecimento profissional passa a ser percebido como algo que nunca se concretiza. A expectativa de sempre “sair da zona de conforto” pode reforçar a ideia de que o trabalhador precisa produzir mais para alcançar uma valorização que permanece distante.

Relatos mostram impactos sobre os trabalhadores

Os depoimentos analisados na pesquisa também apresentam situações de forte pressão organizacional.

Um dos casos envolve um vendedor que abriu mão de parte da própria renda para tentar conseguir uma promoção. Ao aceitar uma função de subgerente, perdeu as comissões e acabou recebendo menos. A empresa, porém, contratou outra pessoa para ocupar a vaga e ainda atribuiu ao trabalhador a tarefa de treiná-la.

Depois da situação, ele passou a apresentar sintomas como ansiedade e gagueira.

Para o pesquisador, casos como esse ajudam a demonstrar como determinadas formas de organização do trabalho podem produzir sofrimento que ultrapassa a dimensão financeira ou profissional.

Contingencialidade transforma trabalhador em recurso disponível

A pesquisa também identifica duas formas de adoecimento relacionadas à organização contemporânea do trabalho: contingencialidade e disjuntividade.

Na contingencialidade, o trabalhador é tratado como alguém que precisa estar disponível conforme as necessidades imediatas da empresa. Sua rotina pessoal, seus estudos, projetos e expectativas acabam subordinados às demandas organizacionais.

A lógica, segundo a análise apresentada na tese, faz com que a pessoa seja acionada quando necessária e possa ser deixada de lado quando sua função deixa de ser considerada prioritária.

Esse modelo também pode afetar a separação entre vida profissional e pessoal, já que as demandas da empresa passam a interferir no tempo e nos projetos do trabalhador.

Disjuntividade apaga trajetória profissional

A segunda patologia apontada pelo pesquisador é a disjuntividade, relacionada ao rompimento da continuidade da trajetória profissional.

Nesse modelo, a experiência acumulada perde importância diante da avaliação do desempenho imediato. O trabalhador passa a ser observado principalmente pelo que entrega naquele momento, sem que sua história e sua contribuição anterior tenham o mesmo peso.

Com isso, torna-se mais difícil construir uma trajetória profissional reconhecida dentro da própria organização.

De acordo com a pesquisa, essas condições não estariam restritas a um setor específico. Os relatos analisados envolvem diferentes áreas e apontam para problemas relacionados à própria forma como o trabalho pode ser organizado.

Riscos psicossociais entram na gestão de segurança do trabalho

O estudo também aborda as mudanças relacionadas à prevenção de riscos psicossociais no ambiente profissional. Desde 26 de maio de 2026, as empresas brasileiras passaram a ter de identificar, avaliar e gerenciar esses fatores dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

A medida considera aspectos da organização do trabalho que podem contribuir para o adoecimento, como metas abusivas, jornadas excessivas, sobrecarga de tarefas, cobranças desproporcionais e situações de assédio moral ou sexual.

A proposta é incorporar os riscos psicossociais aos mecanismos de prevenção e gerenciamento de riscos ocupacionais.

Para Pompeu, porém, a existência de uma obrigação formal não garante, por si só, uma transformação nas relações de trabalho. O pesquisador defende a importância de canais para que trabalhadores possam denunciar situações prejudiciais.

Ele também manifesta preocupação com a possibilidade de empresas priorizarem a produção de documentos e procedimentos para demonstrar conformidade com as exigências, sem necessariamente promover mudanças efetivas na organização do trabalho.

Reconhecimento profissional vai além de metas e resultados

A pesquisa chama atenção para uma dimensão que pode ficar escondida nos indicadores de produtividade: o esforço necessário para que o trabalho aconteça.

Quando cobranças, metas, assédio, falta de perspectivas e ausência de reconhecimento se acumulam, o impacto não necessariamente aparece de imediato nos resultados da empresa, mas pode se manifestar no cotidiano e na saúde dos trabalhadores.

(Com informações de g1)

(Foto: Reprodução/Magnific)

Compartilhe: