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Cientista político atribui vitória de Lula à mobilização popular e à aproximação com as pautas dos trabalhadores

Desafio de Lula é isolar a extrema direita e unir o país, diz André Singer

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá como um dos principais desafios de seu quarto mandato construir condições políticas para unir o país e reduzir a influência da extrema direita. A avaliação é do cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), que defende o isolamento político do bolsonarismo como caminho para fortalecer a democracia brasileira.

Na análise de Singer, a vitória de Lula nas eleições de 2026 foi resultado de uma combinação de fatores: a aproximação da campanha com as necessidades concretas da população, a mobilização popular de esquerda e o uso das redes digitais para ampliar o alcance dessas pautas.

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O cientista político também avalia que o presidente reúne experiência para negociar com um Congresso Nacional mais conservador e considera que as preocupações com o equilíbrio fiscal têm recebido atenção excessiva no debate público.

Mobilização popular foi decisiva para a vitória de Lula

Segundo Singer, a virada eleitoral de Lula entre o primeiro e o segundo turno foi impulsionada por mudanças na estratégia da campanha e pelo crescimento da participação popular. O professor destaca que o presidente passou a abordar questões diretamente relacionadas ao orçamento das famílias, como os preços dos alimentos, além de sinalizar medidas contra as apostas on-line.

Essa aproximação com os problemas cotidianos da população teria contribuído para ampliar o diálogo com as camadas populares. A agenda também incluiu medidas de transferência de renda, propostas de transporte gratuito nos fins de semana e a aprovação do fim da escala 6×1 e da redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial.

Para Singer, as manifestações de esquerda realizadas após o primeiro turno foram especialmente importantes nesse processo. O professor considera que os atos na Avenida Paulista, em São Paulo, estiveram entre as maiores mobilizações desse campo político no país.

A articulação digital também foi apontada como um fator importante. Na avaliação do cientista político, a atuação do deputado federal André Janones ajudou a ampliar a circulação das mensagens da campanha e a conectar as pautas políticas à mobilização nas ruas.

“Essa incorporação da política digital por meio dessa estruturação que o deputado fez, de fato é uma coisa nova no campo da esquerda”, afirmou.

Redução da jornada e valorização da renda

A análise de Singer destaca a importância de propostas que dialogam diretamente com as condições de vida dos trabalhadores. A redução da jornada semanal, por exemplo, representa uma pauta relacionada à distribuição do tempo, ao descanso e à qualidade de vida da classe trabalhadora.

A valorização da renda e a ampliação do poder de compra também aparecem como elementos relevantes na estratégia política defendida pelo presidente. Para Singer, medidas que fortalecem a capacidade de consumo das famílias podem estimular a atividade econômica e contribuir para o aumento da arrecadação pública.

Na avaliação do professor, esse efeito precisa ser considerado no debate sobre os gastos governamentais. Ele argumenta que o governo Lula adotou iniciativas de controle fiscal e que a discussão sobre o déficit público tem recebido importância desproporcional em relação aos possíveis efeitos econômicos das políticas de renda.

Singer sustenta que o aumento do consumo pode movimentar a economia e ampliar a receita de impostos. Essa perspectiva contrasta com análises que concentram a discussão fiscal principalmente nos custos imediatos das medidas governamentais.

Congresso conservador exige articulação política

A composição do Congresso Nacional representa um desafio para o próximo mandato de Lula. De acordo com Singer, o crescimento da bancada do PL fortaleceu a representação parlamentar do bolsonarismo, embora esse grupo não tenha conquistado maioria nas duas Casas legislativas.

O cientista político avalia, porém, que Lula acumulou experiência na negociação com partidos do Centrão, o que pode favorecer a construção de maiorias para aprovar propostas de interesse do governo.

Como exemplo da capacidade de articulação, Singer menciona a aprovação da isenção do Imposto de Renda e da redução da jornada de trabalho. Para ele, esses resultados indicam que é possível avançar em pautas relevantes mesmo diante de um Legislativo com forte presença conservadora.

A estratégia, segundo sua avaliação, deve combinar negociação institucional e isolamento das forças mais radicalizadas. Isso significa distinguir os setores da direita que podem participar de acordos políticos daqueles que, na interpretação do professor, representam uma ameaça à democracia.

Isolar a extrema direita é o caminho para unir o país

Para Singer, a construção de uma frente capaz de reduzir a polarização depende de diferenciar a extrema direita do conjunto da direita brasileira. Ele estima que o bolsonarismo corresponda a aproximadamente 15% do eleitorado e considera que sua influência sobre os demais setores conservadores precisa ser contida.

Na avaliação do professor, a extrema direita tem conseguido ocupar uma posição influente na disputa política sobre o comportamento de parcelas mais amplas da direita. Por isso, o desafio de Lula não seria simplesmente buscar uma conciliação indiscriminada entre todos os grupos, mas criar condições para isolar politicamente as forças que considera contrárias à democracia.

Singer também observa que a vitória de Lula foi sustentada por uma mobilização popular diferente daquela que contribuiu para sua eleição em 2022. Na campanha mais recente, segundo ele, o movimento de esquerda organizado após o primeiro turno teve papel determinante.

Essa mudança pode influenciar as decisões do governo. O cientista político avalia que Lula deverá levar em consideração o compromisso político construído com os setores populares, especialmente na definição das prioridades do próximo mandato.

“O que acontece é que a extrema direita, há três eleições, está polarizando o conjunto da direita. A extrema direita quer eliminar a democracia no Brasil. O conjunto da direita não quer. O trabalho que tem que ser feito, e isso é importante, é um trabalho de isolar a extrema direita. Esse é o desafio que está posto no Brasil e no mundo. E acho que esta vitória da democracia no Brasil vai ter impacto mundial.”, explica.

Prorrogação da votação não compromete legitimidade, avalia professor

A ampliação do horário de votação em duas horas nas eleições de 2026 também foi abordada por Singer. O professor não considera que a medida comprometa a legitimidade do resultado eleitoral.

Em sua avaliação, as circunstâncias que levaram à extensão do prazo teriam prejudicado mais Lula do que seu adversário. Por essa razão, ele considera incontestável a vitória do presidente sob esse aspecto.

Singer ainda chama a atenção para a diferença entre os resultados dos dois últimos pleitos presidenciais. Segundo ele, a margem de vitória em 2026 foi maior do que a registrada em 2022, quando a disputa terminou com uma diferença de 1,8 ponto percentual.

Recuperar a confiança no Judiciário será desafio institucional

Além da relação com o Congresso, Singer considera que Lula precisará lidar com os conflitos envolvendo o Poder Judiciário e a crescente desconfiança de parte da sociedade em relação às instituições.

O professor avalia que a judicialização da política e a politização da Justiça alimentam uma crise que prejudica a democracia. Assim, defende mudanças capazes de recuperar a credibilidade do Judiciário, sem interferência indevida do Executivo em suas atribuições.

Sobre as discussões a respeito do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Singer afirma que a prioridade deve ser a apuração dos fatos e a identificação das responsabilidades. Para ele, decisões antecipadas podem comprometer o debate institucional, especialmente quando o tema é utilizado como instrumento de disputa política.

Na visão do cientista político, a recuperação da confiança nas instituições será importante para fortalecer a democracia durante o próximo mandato. O desafio de Lula, portanto, envolve tanto a construção de acordos políticos quanto a defesa das instituições democráticas e a manutenção do diálogo com a população.

“Sou otimista, no sentido de que me parece que o presidente enunciou diversas vezes que quer ajudar sem interferir. Creio que, se vier a acontecer, a recuperação da credibilidade do Judiciário possa ser um dos elementos institucionais mais positivos do quarto mandato.”, conclui.

(Com informações de Folha de S.Paulo)

(Foto: Ricardo Stuckert/Lula Oficial)

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