Central dos Sindicatos Brasileiros

Opinião | Alexandre Ferraz – Lições do desemprego em São Paulo para o Brasil

Opinião | Alexandre Ferraz – Lições do desemprego em São Paulo para o Brasil

A cidade de São Paulo não é o Brasil, mas entender a dinâmica histórica do emprego e desemprego na sua região metropolitana nos ensina muito sobre o mercado de trabalho no país

O fim da parceria entre o Dieese e a Fundação SEAD para realizar a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), iniciada em 1984 vai deixar uma lacuna difícil de preencher no campo dos estudos sobre o Mercado de Trabalho. Simbolicamente o fim coincide com a morte de um dos seus criadores, o ex-diretor técnico do Dieese, entre 1966 e 1990, Walter Barelli. A PED de São Paulo é a série histórica mais longa e confiável que temos sobre emprego e dezembro no país e durante muito tempo foi usada para “corrigir” outras séries com quebras metodológicas ou interrompidas ao longo da história. A cidade de São Paulo não é o Brasil, mas entender a dinâmica histórica do emprego e desemprego na sua região metropolitana nos ensina muito sobre o mercado de trabalho no país.

O período da redemocratização foi de queda do desemprego paulista, apesar dos fracassos dos planos de estabilização Cruzado I e II, e do plano Bresser e Verão. Promulgada a Constituição, o país se viu às voltas com o descontrole inflacionário, recessão e crise fiscal do estado. No fim de 1989, quando Collor foi eleito a RMSP tinha a menor taxa de desemprego oculto desde que Sarney assumira e a menor taxa de desemprego aberto desde o fim de 1986. Mas a inflação, que vinha acelerando desde aquele ano, havia saído do controle e atingido o patamar de 1.972,9% calculados pelo IPCA/IBGE. O país só conseguiu se livrar da inflação de mais de 3 dígitos em 1995, com o êxito do Plano Real. Os mais jovens podem não saber, mas o descontrole inflacionário e fiscal custou caro ao país, e a experiência neoliberal inaugurada por Collor fez explodir o desemprego.

A Taxa de Desemprego Total que já vinha crescendo pulou de 9,3% quando Collor assumiu para 14,4%. Todo paulista tinha um desempregado na família. O desemprego oculto pelo subemprego e pelo desalento cresceu 178%, praticamente triplicando. O período de Itamar Franco na presidência, com Barelli como ministro do trabalho, foi de relativa trégua no mercado de trabalho. O governo interrompeu a experiência neoliberal e traçou um novo plano de estabilização em 1994, que recolocaria o Brasil no trilho do desenvolvimento. O desemprego oculto cedeu, mas o desemprego aberto permaneceu em patamares relativamente altos, registrando uma média de 8,8% entre 1993 e 1994.

O Plano Real conseguiu com sucesso acabar com a hiperinflação que assolava o país desde 1989, mas a melhora na conjuntura econômica não se refletiu no emprego. Ao contrário, o país foi incapaz de reencontrar uma trajetória de crescimento e o desemprego explodiu, toda família passou a ter um parente desempregado, todo mundo a ter um amigo amargando a fila do desemprego. FHC herdou uma taxa de desemprego aberto de 7,8% e oculto de 4,8%, totalizando uma taxa de 12,6% na RMSP, segundo a PED. E o desemprego não parou de crescer até o primeiro trimestre de 1999, atingindo 19,9% em março daquele ano. Apesar disso FHC ganhou a reeleição com folga e resolveu mudar o rumo da política econômica.

Com a desvalorização do Real em janeiro, o governo abandonava a âncora cambial que havia contribuído para inflação baixa à custa do emprego e da desindustrialização e buscava uma nova estratégia para crescer sem a volta da inflação. A criação de uma âncora fiscal e um regime de metas de inflação, um dos principais pontos desta mudança foi a implantação da lei de responsabilidade fiscal em 2001, depois de duras negociações com os governos estaduais em que a União assumiu vários esqueletos em troca da privatização dos bancos e companhias estaduais de telefonia. A estratégia de amarrar as mãos do estado, contudo, não obteve sucesso. O investimento público caiu e o tamanho do Estado continuou sendo reduzido. O desemprego que havia cedido, entre 1999 e 2000, voltou a subir. O desemprego total voltou a bater 19,9% em março de 2002, chegou a 20,4% em abril e ficou neste patamar até março de 2004.

A crise do emprego foi determinante para a derrota de Fernando Henrique, em 2002, 1 em cada 5 pessoas economicamente ativas estava desempregada. E o pior, a inflação havia retomado os dois dígitos e estava subindo. O IPCA fechou em 5,97% em 2000, 7,67% em 2001 e 12,53% em 2002. Quando Lula assumiu em 2003 precisou adotar uma política recessiva para afastar novamente o risco do descontrole inflacionário, o que acabou contribuindo para manutenção do elevado desemprego. Os ventos começaram a mudar em 2004, quando o governo pode colocar em pratica um novo plano de desenvolvimento para o país, aumentando o investimento e o emprego sem o risco inflacionário.

Entre 2004 e 2014 o país viveu sua era de ouro no Mercado de Trabalho e não foi diferente na RMSP. Os desempregos abertos e oculto caíram para o menor patamar histórico e de forma consistente até o fim de 2011. E se manteve neste patamar até o fim de 2014. Foram 8 anos de desemprego em queda e 3 de “pleno emprego”, o Brasileiro que estava habituado a conviver com o fantasma do desemprego experimentava um período de esperança e otimismo em que praticamente todos que procuravam trabalho conseguiam, alimentando a renda das famílias e impulsionando o desenvolvimento do país.

Em 2015, contudo, o emprego entrou em colapso e como se não bastasse a inflação voltou aos 2 dígitos fechando o ano em 10,67%. O desemprego disparou passando de 9,9% em dezembro de 2014 para 16,2% no fim de 2016. E continuou a subir até maio de 2017, quando atingiu 18,8%. A guerra política instaurada com o processo de impeachment, e a paralização dos investimentos decorrente do conflito político e das ações da Lava a Jato minaram a confiança dos empresários e trabalhadores.

A sensação para o Brasileiro foi de retrocesso. As famílias se viram novamente vulneráveis com seus membros próximos desempregados e com a perda do poder de compra daqueles que se mantiveram no emprego. Mas do que isso, o crescimento do emprego se deu justamente sobre o emprego formal, derrubando a taxa do emprego aberto. E a reformas proposta no governo Temer para liberalizar o mercado de trabalha, nem de longe cumpriu a promessa de gerar empregos. Ao contrário, trocamos empregos plenos de direitos por empregos precários.

A última pesquisa da PED para a região Metropolitana de São Paulo foi em abril de2019. A taxa de desemprego aberto estava em 13,9%, o desemprego oculto em 2,8% totalizando uma taxa de desemprego total de 16,7%. A melhora em relação ao mesmo período do ano anterior foi tímida demais para ser percebida pelas famílias, a sensação é de desesperança caminhando para o desespero daqueles que não acham emprego, que não tem como contribuir para o sustento dos seus, nem conseguem arcar com o próprio sustento. A falta de uma política com o objetivo de retomar o crescimento e gerar emprego e renda deixa a sensação que apagaram a luz no fim do túnel.

Não é questão de mérito pessoal ou demérito o desemprego, nem um problema deajuste micro – o desemprego “friccional”. O fato é que quem está atrás de emprego não acha, desiste ou custa muito a achar como mostra o gráfico abaixo também com dados da PED sobre o tempo médio despendido na busca por emprego em semanas. Desde o fim de 2017 o brasileiro tem levado em média 50 semanas na busca por  emprego, pouco mais de 12 meses ou um ano. O seguro desemprego, para se ter um parâmetro, cobre no máximo 5 meses de desemprego. No resto do tempo o desempregado estará sozinho, ou no máximo com a família e os amigos que não se afastarem.

Esta descrença e a certeza de que algo precisa ser feito está na cabeça de cada um edeve marcar, deve ser prioridade número um dos brasileiros nas eleições municipais do próximo ano. Até lá não há sinais de melhora neste quadro. São Paulo possui cerca de 775 milhões de pessoas empregadas no setor privado sem carteira assinada, e mais do que o dobro deste número de autônomos, muitos deles trabalhadores precarizados. Praticamente em mesmo número que os autônomos temos os desempregados, são cerca de 1,8 milhões de pessoas, a maior parte mulheres. Todos se sentem desta catástrofe, a população de rua aumentou, e a violência cresceu.

A inflação eleja, mas o desemprego mata. Quem não buscar uma solução eficaz paraesta mal não estará conversando com o coração e mente dos brasileiros nas próximas eleições. São Paulo e o Brasil perderam um de seus instrumentos para aferir o desemprego, mas isso não elimina o problema. É uma perda grave neste período em que vemos a volta do obscurantismo e da manipulação dos dados. Mas temos que ter coragem para enfrentar o problema. Precisamos reencontrar o caminho do desenvolvimento o quanto antes, do contrário estaremos descartando toda uma geração novamente.

Fonte: Blog Brasil 247 – Alexandre Ferraz
Link: https://www.brasil247.com/blog/licoes-do-desemprego-em-sao-paulo-para-o-brasil

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